quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A busca da iluminação interior



A tradição a respeito da iluminação interior praticamente se inicia com Sidartha Gautama. Depois das longas peripécias, quando ele se sentou à sombra de uma árvore bodhi defronte de um rio e mergulhou no mundo íntimo interior para meditar, iluminou-se. Dias mais tarde, um jovem discípulo, vendo-o meditando, comoveu-se e ficou contemplando-o .Quando ele abriu os olhos, o jovem indagou-lhe:
Mestre, tu és Deus?
Não, não sou.
Então, tu és um anjo?
Não, também não sou. Por que me perguntas?
Porque brilhas, mestre! Por que brilhas?
Porque estou desperto, consciente da verdade. Todo aquele que encontra a verdade adquire brilho interior.
A iluminação faz parte dos ensinamentos de Jesus, por exemplo, quando Ele propõe: Busca primeiro o Reino de Deus e a Sua justiça, e tudo o mais te será acrescentado.
Buscar primeiro o Reino de Deus e Sua justiça é o grande desafio que todos devemos enfrentar, qual aconteceu com Paulo, que após fazê-lo e consegui-lo, declarou: Já não sou eu que vivo, mas o Cristo que vive em mim.
A iluminação interior recebeu, ao largo da História, inúmeras denominações como: Messias, Cristo, paz interna, Paz de Deus que está além da compreensão, Consciência Cósmica, satori, samadhi ou moksha, fana... Gurdjieff, o grande psicólogo russo, costumava dizer que era uma autorrealização, a consciência objetiva, e Carl Gustav Jung denominou-a como o estado numinoso, quando nos enriquecemos de luz.
O que é, porém, a iluminação interior? Não se trata de um estado alterado de consciência, de paranormalidade, nem de mediunidade, ou de outra qualquer faculdade intelectiva. Trata-se de uma atividade de autoconscientização, é a revelação da verdade do Ser (Deus, Ser Cósmico, Ente Supremo), também é a busca do vir-a-ser... E, por isso mesmo, está ao alcance de todos os indivíduos, que não devem postergar a sua conquista.
Dizia Lao-Tsé:
Quem conhece os outros é um sábio, mas quem conhece a si mesmo é um iluminado.
Porque é muito fácil conhecer os outros, mas, para se autoconhecer, é indispensável realizar essa iluminação, que não passou desapercebida a Allan Kardec, conforme nos recordamos, e que se encontra na questão 919 de O Livro dos Espíritos, quando ele interrogou aos benfeitores da Humanidade:
Qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal?
Não se tratava de qualquer meio prático, mas daquele mais eficaz. Como consequência, a resposta foi incisiva:
Um sábio da antiguidade já vo-lo disse: “Conhece-te a ti mesmo.”
E Santo Agostinho, que deu a resposta, comentou, numa bela página de filosofia ética, que podemos sintetizar:
Fazei como eu. Toda vez quando buscava o leito para o repouso, procurava revisar os meus atos daquele dia. Quando me dava conta dos erros, de imediato, no dia seguinte procurava reabilitar-me. E, quando estava certo, procurava seguir adiante...
Tratava-se de um exame de consciência. E por que exame de consciência? Allan Kardec, igualmente, teve a preocupação com essa consciência, ao interrogar as mesmas Entidades, conforme a questão 621 da citada obra
– Onde está escrita a lei de Deus?
– E recebeu como resposta: Na consciência.
É a segunda resposta mais sintética da filosofia espírita.
A primeira é a resposta à questão de número 625, quando ele perguntou:
Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem para lhe servir de guia e modelo? – Jesus – foi a resposta.
Desse modo, a iluminação interior é uma conquista que não devemos postergar. Ainda mais, porque os outros veem em nós o que não é habitual encontrar-se em outras pessoas...
Pelo fato de sermos espiritistas, buscando restaurar o Cristianismo em nossas vidas, apresentamos um comportamento diferenciado daquele que caracteriza o cidadão convencional do mundo, porque lutamos para superar as paixões ignóbeis, capitaneadas pelo egoísmo, para a superação dos vícios, para a eliminação da sombra.
É necessário que enfrentemos a nossa sombra para poder dilui-la, que realizemos esse eixo ego – self, para lograrmos, ainda, segundo Jung, a individuação, isto é, tornarmo-nos ser integral e não um qualquer, como aqueles que estão no mundo semeando os costumes infelizes, as perturbações... Havendo encontrado Jesus, já pusemos a mão na charrua e não mais olhamos para trás.
Como será possível realizar essa iluminação interior?
Existem vários métodos.
Ela pode vir suavemente, a pouco e pouco, mediante o trabalho incessante do bem, através da oração, da meditação, da reflexão profunda, ou através de insight.
De um momento para outro ela irrompe e domina o nosso íntimo.Eu tenho uma experiência muito curiosa e algo ridícula...
Quando eu era criança, nordestino, e cantava o hino à Bandeira Nacional, porque era obrigatório nas escolas fundamentais, no trecho que diz a verdura sem par destas matas, eu muito me comovia. Eu era apaixonado pelo Brasil por causa da verdura sem par destas matas, porque verdura, no interior do Estado da Bahia, onde eu nasci e vivia, era alface, couve, hortelã, pimentão etc.
Eu reflexionava: Deus meu, como é possível matas de repolho, coentro etc.?
Para mim, era demais.
Então cantava com entusiasmo e orgulho, e, nesse momento, o peito parecia estourar, porque eu nascera em um país de tal riqueza.
Passaram-se os anos, e mesmo adulto continuei com a falsa interpretação.
Certo dia, andando, subitamente tive uma iluminação: Meu Deus! Não é verdura, é verdura, são as matas verdes...
Ah, que decepção! A minha iluminação foi para baixo.
Então, podemos experienciar muitas vezes a iluminação, até mesmo em torno dos nossos equívocos.
Esse insight é o despertar da consciência, que nos proporciona a percepção do que somos, mas também do que poderemos lograr, deixando um pouco de lado a indumentária fantasiosa da humildade que, às vezes, não passa de um verniz aparente. Quantos indivíduos que se interrogam e concluem: Quem sou eu? Eu não sou nada, eu sou um lixo!
Esse conceito pessimista e depressivo nada tem a ver com humildade. Recordo-me de Jesus, o ser mais humilde que esteve na Terra, e nunca se considerou lixo.
Após tal conclusão, descobri-me como filho de Deus. E comecei a me sentir honrado em ser filho de Deus, trabalhando para corresponder à gênese sublime.
Recentemente li um livro escrito pelo Dr. Dean Hamer, um grande estudioso da genética do comportamento,. Que se intitula O Gene de Deus.
Depois da decodificação do genoma humano, ele constatou, com a sua equipe de pesquisadores nessa área, que o nosso DNA possui cerca de trinta e cinco mil genes – quando se pensava que eram cem mil – e um desses genes, ele definiu como sendo o gene de Deus: o VMAT2.
O Dr. Hamer, com a sua equipe, pesquisou mais de dez mil gêmeos idênticos e constatou que gêmeos nascidos nas Filipinas – um sendo mandado para a Austrália, o outro para a Nova Zelândia, ou outro lugar qualquer – acreditavam em Deus.
As experiências foram longas e eles constataram que crer em Deus é um fenômeno genético.
Ter uma religião é um fenômeno sociológico.
Temos a religião dos nossos pais, da família, do meio social, da educação.
Jesus referiu-se a essa questão de forma interrogativa:
Não está escrito que vós sois deuses?
Portanto, podeis fazer tudo que eu faço e muito mais, se quiserdes.
Então, é necessário que desenvolvamos esse Deus interno. Também o Dr. Hamer diz que a nossa fé é natural, é espontânea, sendo científica, mesmo quando fé natural. Aliás, Allan Kardec estabeleceu que Fé inabalável só o é a que pode encarar frente e frente a razão, em todas as épocas da Humanidade.
A fé, portanto, é esse instrumento que nos vai levar à autoiluminação. Dois grandes especialistas, o Dr. Abraham Maslow – que criou a Psicologia Humanista – e o Dr. Robert Cloninger, um dos pais da Iluminação interior na atualidade, estabeleceram que podemos consegui-la através de três etapas: a primeira etapa, dizem eles, é o autoesquecimento, e contam a história sublime de um sacerdote italiano de nome Mateo Ricci que foi pregar na China, nos tempos heróicos de divulgação do Cristianismo, e esse homem deixou todas as comodidades da Itália, aprendeu os ideogramas – cinquenta mil – e adaptou-se de tal forma à vida chinesa, que deixou de ser o estrangeiro, para bem divulgar Jesus, logrando o autoabandono para poder servir.
A segunda etapa é a busca do transcendente, a identificação transpessoal.
Não esquecermos nunca de que somos transcendentais.
E eles citam Albert Schweitzer, o maior músico do século dezenove e parte do século vinte, que também renunciou a tudo para ir para a África Equatorial Francesa, a fim de ajudar as treze etnias em Lambaréné, explicando que nós, da chamada civilização branca, temos uma dívida para com a África, de quatrocentos anos de servidão. Não apenas de escravidão, mas também de sífilis, de gripe, que são doenças que os brancos lhes transmitiram.
E por fim, eles propõem o misticismo, no sentido profundo da palavra, que é a plena integração com o espírito do Cristo, tentando manter esse espírito do Cristo numa constância contínua dentro de nós. Então, ocorre, passo a passo, a nova iluminação.
A iluminação interior acontece a qualquer hora, a qualquer instante. O venerável Chico Xavier, o apóstolo da mediunidade, dizia:
Eu não sou nada, eu sou apenas um cisco [por causa do nome Fran...cisco, tira o Fran, fica cisco]. Mas eu sou o secretário dos Espíritos que por mim escrevem.
E autoiluminou-se. Esbofeteado, não reagiu. Perseguido, sorriu com lágrimas. E quando alguém escarrou-lhe na face, depois que lhe lera mensagem de um familiar, o destinatário reagiu, ultrajado, gritando:
Mentira!
Rasgou-a, jogou-lhe os pedaços na cara e cuspiu-o . Todos ficaram petrificados, enquanto o homem saiu possesso. Chico ficou muito pálido, limpou o rosto e tentou continuar sorrindo. No dia seguinte, sábado, como eu houvera presenciado a cena, à véspera, perguntei-lhe:
E então Chico, o que aconteceu?
Calmamente, ele respondeu:
Ah! Meu filho, quando eu cheguei em casa, às duas da madrugada, Emmanuel estava à porta e, vendo-me muito triste, perguntou-me o que acontecera. Eu expliquei-lhe, e ele me confortou da seguinte maneira: “Quero dizer-te que, da próxima vez que alguém cuspir na tua face, olha para cima e dize: eu creio que está chovendo!”
Era, portanto, um iluminado, porque bater na face de alguém que não reage, escarnecer de quem não se pode defender, são atos de suprema covardia e que bem poucos suportam, mantendo a coragem de agir mediante o perdão e a misericórdia para com o agressor.
Que nós, os espíritas, possamos adquirir essa luminosidade interior, desculpar sempre, entender, nem digo perdoar, entender o mal e os maus que nos perseguem, a fim de que os outros, quando nos vejam, possam perguntar: Por que você é diferente? Por que você está nesse estado luminoso?
E nós, sorrindo, respondamos:
Porque estamos conscientes da verdade, apenas isto.

Mensagem de Divaldo Pereira Franco
http://www.divaldofranco.com/mensagens.php 

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