quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A BUSCA PELA SABEDORIA


Dois “filhos”, candidatos a uma iniciação maior, procuraram
um velho sábio inquirindo-o sobre como alcançarem os
conhecimentos que verdadeiramente os elevaria acima do saber
comum e seriam para eles a chave para os caminhos da elevação
espiritual.
O velho sábio fitou-os com carinho e, após muito pensar expôslhes
o seguinte:
-“Bem sei que o que ora me pedem parece ser um grande
segredo escondido no recôndito de algum lugar inexpugnável. Talvez
o seja e, provavelmente, somente a ele terão acesso aqueles que
tiverem o preparo adequado. Vou lhes mostrar dois caminhos a
escolher dentre os tantos desse bosque. Um deles é áspero, rico em
tortuosidades, aclives, declives, dificuldades e nele provavelmente
encontrarão algum perigo que sempre poderá ser sublimado pelo que
até agora trazem de experiências.
O segundo é mais suave. Não tem tantos aclives, declives,
dificuldades e é praticamente uma linha reta entre nós e seus objetivos.
Ambos os caminhos poderão levá-los a um ponto. O ponto
final: a sabedoria.
Pelo livre arbítrio que lhes cabe e visando o objetivo maior,
vocês devem escolher por qual caminho deverão caminhar”.
O primeiro, sem pestanejar, sempre atento às explicações, nem
deixou o velho terminar e disse:
-“Se tenho de alcançar o objetivo proposto, que seja rápido,
pois quanto mais depressa tiver esses conhecimentos em minhas mãos,
mais depressa poderei com eles ajudar ao meu próximo, livrando-os
das possíveis dificuldades e consequentemente alcançando minha
elevação espiritual. Desse modo, vou escolher esse caminho mais
curto”.
O segundo, ainda meio confuso com a rapidez de pensamento
de seu companheiro, parou, pensou e, depois de algum tempo disse ao
velho:
-“Vou escolher o caminho mais difícil”.
-“Mas por que?” Inquiriu-o o primeiro.
-“Não sei, mas tenho a impressão de que há algo nele que ainda
não percebemos”.
-“Mas, e nosso objetivo?” Tornou o primeiro.
-“Talvez um dia eu chegue lá. No momento sinto necessidade
de vencer esse desafio de minha curiosidade”.
Embora não conseguindo entender, por já se fazer tarde, após
as novas explicações do velho sobre como chegarem ao início de
ambos os caminhos, empreenderam suas caminhadas.
Enquanto o primeiro, tendo iniciado o caminho mais suave,
podia quase que correr, e até o fazia quando se sentia disposto, o
segundo, por saber que o caminho escolhido seria árduo, tinha cada
movimento medido. A tudo observava e nem pisava firme sem antes
se certificar de que o chão não lhe trairia.
Ambos encontraram grupos de pessoas que habitavam naqueles
bosques.
O primeiro parava, se orientava e retomava o caminho. O
segundo parava, se orientava e, quase sempre pernoitava e buscava
com os moradores, aprender os segredos que envolviam a
sobrevivência nos locais.
Nesse ritmo iam se passando os dias e a caminhada de ambos
progredia, até que, no quinto dia, exausto, cheio de fome e sede, sem
ter se apercebido de que não comera, bebera ou dormira
adequadamente por todo o tempo, na ânsia de dar por terminada sua
missão, o primeiro viajante viu-se desgastado, febril, todo arranhado
pela vegetação nativa, pés ensangüentados, de forma que, àquele ponto
tinha de dar por encerrada sua aventura – não podia dar mais um passo
sequer.
Deixou-se cair na estrada e, por mais que tentasse, seu corpo já
não lhe obedecia o comando.
Ficou dessa forma, não se sabe por quanto tempo, tendo mesmo
perdido a consciência por várias vezes.
Em um dos poucos momentos de consciência que ainda
sobrevinham, repentinamente viu ao seu lado o companheiro que
empreendera viagem por outra estrada. Sem forças, entregou-se
novamente à inconsciência.
Muito mais tarde, tendo sido tratado, alimentado e aquecido
por seu companheiro e já meio refeitas suas forças, quis saber como
poderiam estar juntos se haviam escolhido caminhos diferentes e,
principalmente, como podia ser que ele, tendo empreendido o caminho
mais suave, estivesse naquele estado enquanto o outro, tão calmo,
tranqüilo, jovial, se estivera por caminhos tão mais tortuosos.
Nesse momento, ouviu-se um barulho entre os arbustos e dali
viram sair o velho sábio que lhes indicara os caminhos.
Aproximando-se da dupla exclamou:
-“Muito bem, vejo que ambos chegaram ao ponto final!”
-“Como ponto final?”- retrucou o primeiro .
- “Será que é aqui que vamos encontrar a sabedoria?”
-“Na verdade – respondeu o velho – devo dizer que cada um a
seu modo e nível alcançou os conhecimentos básicos para chegarem à
sabedoria.”
-“Olha velho – disse o primeiro – você já nos enganou uma vez
quando disse ser o caminho que escolhi o mais suave, e agora vem
com essa conversa de que a sabedoria está aqui, no meio desse mato?”
-“Na verdade, meu caro, devo lhe dizer que houve sim um
grande engano, mas foi de sua parte quando pensou que a sabedoria
poderia ser como um amuleto, um troféu ou um grande livro onde se
pudesse saber sobre tudo o que existe. A sabedoria está realmente no
todo. Em cada passo que se dá, na própria vida, em cada atitude que se
toma, em cada caminho por que se passa, em cada experiência que se
faz.
Ao tentar encurtar seu caminho, o que você realmente
conseguiu foi deixar de vivenciar as experiências que a estrada lhe
oferecia e, na pressa, foi deixando para trás os diversos ensinamentos
de que ainda tinha necessidade e, a tal ponto, que até mesmo as
necessidades mais básicas como: comer, beber e dormir, foram
deixadas de lado sem que se lembrasse de que provavelmente de nada
valeria todo o conhecimento do mundo, se não houvesse um corpo são
para propagá-lo
Quanto aos caminhos, eles só eram diferentes no início. Após
algum tempo ambos se uniam, tornando-se o mesmo, até aqui onde
vocês vieram a se encontrar.
Na verdade, pelo seu modo de ser, de agir, de pensar, foi você
quem fez de seu caminho um inferno.
Quanto à verdadeira sabedoria, cada um teve a oportunidade de
adquiri-la durante a caminhada, em cada momento dela e, a seu modo,
cada um absorveu aquilo que era capaz.”
Que tal pararmos, de vez em quando, refazermos nossos corpos e
mentes cansados, pedirmos orientação de quem tem mais vivência nos
caminhos que escolhemos e, através dessas experiências, unidas às
nossas próprias, podermos trilhar mais suavemente os caminhos de
nossas vidas ... que tal? Besteiras? Não! SABEDORIA !!!

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