quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O programa do Senhor


Olá queridos Amigos,



Que a paz do Senhor habite em nossas almas...



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O Programa do Senhor






À frente da turba faminta, Jesus multiplicou os pães e os peixes, atendendo à necessidade dos circunstantes.

O fenômeno maravilhara.

O povo jazia entre o êxtase e o júbilo intraduzíveis.

Fora quinhoado por um sinal do Céu, maior que os de Moisés e Josué.

Frêmito de admiração e assombro dominava a massa compacta.

Relacionavam-se, ali, pessoas procedentes das regiões mais diversas.

Além dos peregrinos, em grande número, que se adensavam habitualmente em torno do Senhor, buscando consolação e cura, mercadores da Iduméia, negociantes da Síria, soldados romanos e cameleiros do deserto ali se congregavam em multidão, na qual se destacavam as exclamações das mulheres e o choro das criancinhas.

O povo, convenientemente sentado na relva, recebia, com interjeições gratulatórias, o saboroso pão que resultara do milagre sublime.

Água pura em grandes bilhas era servida, após o substancioso repasto, pelas mãos robustas e felizes dos apóstolos.

E Jesus, após renovar as promessas do Reino de Deus, de semblante melancólico e sereno contemplava os seguidores, da eminência do monte.

Semelhava-se, realmente, a um príncipe, materializado, de súbito na Terra, pela suavidade que lhe transparecia da fronte excelsa, tocada pelo vento que soprava, de leve...

Expressões de júbilo eram ouvidas, aqui e ali.

Não fornecera Ele provas de inexcedível poder? Não era o maior de todos os profetas? Não seria o libertador da raça escolhida?

Recolhiam os discípulos a sobra abundante do inesperado banquete, quando Malebel, espadaúdo assessor da Justiça de Jerusalém, acercou-se do Mestre e clamou para a multidão haver encontrado o restaurador de Israel. Esclareceu que conviria receber-lhe as determinações, desde aquela hora inesquecível, e os ouvintes reergueram-se, à pressa, engrossando fileiras ao redor do Messias Nazareno.

Jesus, em silêncio, esperou que alguém lhe endereçasse a palavra e, efetivamente, Malebel não se fez de rogado.







- Senhor - indagou, exultante -, és, em verdade o arauto do novo Reino?

- Sim - respondeu o Cristo, sem titubear.

- Em que alicerces será estabelecida a nova ordem? - prosseguiu o oficial do Sinédrio, dilatando o diálogo.

- Em obrigações de trabalho para todos.


O interlocutor esfregou o sobreceno com a mão direita, evidentemente inquieto, e continuou:


- Instituir-se-á, porém, uma organização hierárquica?

- Como não? - acentuou o Mestre, sorrindo.

- Qual a função dos melhores?

- Melhorar os piores.

- E a ocupação dos mais inteligentes?

- Instruir os ignorantes.

- Senhor, e os bons? Que farão os homens bons, dentro do novo sistema?

- Ajudarão aos maus, a fim de que estes se façam igualmente bons.

- E o encargo dos ricos?

- Amparar os mais pobres para que também se enriqueçam de recursos e conhecimentos.

- Mestre - tornou Malebel, desapontado -, quem ditará semelhantes normas?

- O amor pelo sacrifício, que florescerá em obras de paz no caminho de todos.

- E quem fiscalizará o funcionamento do novo regime?

- A compreensão da responsabilidade em cada um de nós.

- Senhor, como tudo isto é estranho! considerou o noviço, alarmado - Desejarás dizer que o Reino diferente prescindirá de palácios, exércitos, prisões, impostos e castigos?

- Sim - aclarou Jesus, abertamente -, dispensará tudo isso e reclamará o espírito de renúncia, de serviço, de humildade, de paciência, de fraternidade, de sinceridade e, sobretudo, do amor de que somos credores, uns para com os outros, e a nossa vitória permanecerá muito mais na ação incessante do bem com o desprendimento da posse, na esfera de cada um, que nos próprios fundamentos da Justiça, até agora conhecidos no mundo.







Nesse instante, justamente quando os doentes e os aleijados, os pobres e os aflitos desciam da colina tomados de intenso júbilo, Malebel, o destacado funcionário de Jerusalém, exibindo terrível máscara de sarcasmo na fisionomia dantes respeitosa, voltou as costas ao Senhor, e, acompanhado por algumas centenas de pessoas bem situadas na vida, deu-se pressa em retirar-se, proferindo frases de insulto e zombaria...


O milagre dos pães fora rapidamente esquecido, dando a entender que a memória funciona dificilmente nos estômagos cheios, e, se Jesus não quis perder o contato com a multidão, naquela hora célebre, foi obrigado a descer também.






- Irmão X & Chico Xavier -

Obra: Pontos e Contos.


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