segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Simão, o mendigo


Doente, pobre, velhinho, 
O desditoso Simão, 
Arrimado a seu bordão, 
Andava devagarinho. .. 

Pés e mãos em chaga aberta, 
Lá ia o velho, coitado! 
Enfermo, desamparado 
E humilde na estrada incerta. 

Cabelo todo branquinho, 
Rugosa a face morena, 
O pobre metia pena 
A vagar pelo caminho... 

De onde viera? Ora, quem 
Buscava saber ao certo? 
Vinha de longe ou de perto? 
Ninguém sabia, ninguém. 

Só lhe sabiam do nome, 
E que, em miséria, sem nada, 
Ele esmolava na estrada, 
A fim de matar a fome. 

Estendendo seu chapéu, 
Pedia, cheio de dor: 
- Uma esmola, meu senhor, 
Por amor ao Pai do Céu!... 

Mas, oh! Deus, que desalento 
Neste mundo de aflição! 
Ninguém ouvia Simão 
Nas horas do sofrimento. 

- Passai de largo! é leproso!... - 
Diziam homens cruéis - 
- Oh! não vos aproximeis 
Deste ancião perigoso!... 

- Ah! que graça! Põe-te à brisa! - 
Exclamava outro passante - 
Nada de esmola ao tratante, 
Que este velho não precisa!... 

O mendigo, nos seus ais, 
Dizia: - Viva a saúde! 
Trabalhei enquanto pude, 
Agora, não posso mais... 

Toda a gente lhe fugia, 
Ninguém lhe dava uma sopa, 
Nem um trapinho de roupa 
Para a noite da agonia. 

Muito tempo era passado, 
E o desditoso velhinho 
Sentia-se mais sozinho, 
Mais doente, mais cansado... 

Chegou, enfim, um momento 
Em que o velho sofredor 
Caiu de frio e de dor 
Na estrada do sofrimento. 

Caiu e sonhou, contente, 
Embora a sede e o cansaço, 
Que Jesus vinha do Espaço 
Dizendo-lhe, docemente: 

"- Escuta, meu bom Simão, 
Não temas, querido amigo! 
Sê forte! Eu estou contigo. 
Chegaste à ressurreição. 

Não chores. Estou aqui!... 
Terminou tua aflição, 
Estás em meu coração! 
Pensavas que te esqueci? 

Enquanto o mundo enganado 
Atormentava- te ao peso 
De zombaria e desprezo, 
Eu sempre estive ao teu lado. 

Teus prantos e tuas dores 
São, hoje, a luz que te veste 
No campo do amor celeste, 
Repleto de eternas flores." 

E Jesus, em voz mais terna, 
Concluía: - "Vem, Simão, 
À doce consolação 
Do mundo de luz eterna!..." 

E Simão, chorando e rindo, 
A seguir, ditoso, o Mestre, 
Esqueceu a dor terrestre, 
No céu venturoso e lindo. 

O caminho era de estrelas 
De tão sublime matiz 
Que o pobre ria, feliz, 
Sem saber como entendê-las. 

No outro dia, ao reconforto 
Do Sol de coroa erquida, 
Acharam Simão sem vida... 
O mendigo estava morto. 

Xavier, Francisco Cândido. Da obra: Jardim de Infância. Ditado pelo Espírito João de Deus. Rio de Janeiro, RJ: FEB. 

* * * Estude Kardec * * *




reflexaoespirita

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