segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Nunca se sabe onde está uma despedida ...


Nunca se sabe onde está uma despedida. Até no afã do até logo pode 
esconder-se um nunca mais. Na frase infeliz, na simples conversa, algo 
pode estar morrendo, do amor ou da amizade.

Há despedidas que não são patentes. Não se lhes percebe o estalo do 
afastamento, que pode estar no instante de mau humor, na resposta 
infeliz, na alegria que não se repete ou na palavra que deixamos de dar 
e receber. Às vezes, está na palavra que dizemos.

Nem sempre as pessoas se separam: esgarçam-se às vezes. Viver esgarça. É 
algo que se afasta sem romper completamente. Também no que esgarça pode 
haver despedida pois, embora não haja perda de matéria, nunca mais será 
como antes.

Despedir-se é sutil, nem sempre aparece. Seres em mutação, vivemos a 
mudar sem saber. Na mudança, transforma-se em recordação o que antes era 
união e vontade, amizade ou convivência. Tudo faz-se retrato, álbum, 
caderno, poema, carta, saudade ou memória. A despedida não é por querer: 
acontece a despeito. Um simples "até já" pode conter inimagináveis 
nuncas. Ou sempre.

Maravilhosa e cruel a vida! Tudo pode acontecer. As ligações, salvo 
poucas, fazem-se precárias e falíveis. Nosso destino é preso a 
acontecimentos semicontroláveis. Ou impulsos, cansaços, e as 
discordâncias, são imprevisíveis. E geram despedidas antes insuperáveis.

Ninguém sabe de quem se afastará. Nem quais as amizades e amores de toda 
a vida, nada obstante existam. Raros captam a dor que estala em cada 
hipótese de despedida. Separar-se contém sempre a hipótese da despedida. 
Por isso, uma dor sempre se infiltra em cada afastamento. Algo se 
assusta, escondido em tudo o que se separa. Ainda que para ir ali 
pertinho e logo voltar.

Quem viaja ameaça a despedida. "Partir é morrer um pouco". Dizem os 
franceses, e com razão. Ainda que para encontrar-se depois, quem parte
arrisca despedidas. Por isso, a emoção subjacente percorre-lhe o 
mistério e a "região das certezas absolutas".

As grandes despedidas dão-se - contudo - sem que o percebamos. As que 
sabemos e sofremos não são despedidas completas, pois a saudade e a 
memória hão de trazer de volta o sentimento genuíno que agora causa dor. 
As grandes despedidas infiltram-se no cotidiano e nos atos corriqueiros 
de cada dia sem ser percebidas. Muitos anos depois, vamos verificar que 
disfarçado em dia-a-dia ali estavam e estalavam saudades antecipadas, 
vários nuncas dos quais jamais suspeitamos. Nunca se sabe onde está uma 
despedida.

A não ser muito depois.

(Arthur da Távola)

Nenhum comentário:

Postar um comentário