quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A Piedade


A piedade é a virtude que mais vos aproxima dos anjos; é a irmã da caridade, que
vos conduz a Deus. Ah! deixai que o vosso coração se enterneça ante o espetáculo das
misérias e dos sofrimentos dos vossos semelhantes. Vossas lágrimas são um bálsamo que lhes
derramais nas feridas e, quando, por bondosa simpatia, chegais a lhes proporcionar a
esperança e a resignação, que encanto não experimentais! Tem um certo amargor, é certo,
esse encanto, porque nasce ao lado da desgraça; mas, não tendo o sabor acre dos gozos
mundanos, também não traz as pungentes decepções do vazio que estes últimos deixam após
si Envolve-o penetrante suavidade que enche de jubilo a alma. A piedade, a piedade bem
sentida é amor; amor é devotamento; devotamento é o olvido de si mesmo e esse olvido, essa
abnegação em favor dos desgraçados, é a virtude por excelência, a que em toda a sua vida
praticou o divino Messias e ensinou na sua doutrina tão santa e tão sublime.

Quando esta doutrina for restabelecida na sua pureza primitiva, quando todos os
povos se lhe submeterem, ela tomará feliz a Terra, fazendo que reinem aí a concórdia, a paz e
o amor.

O sentimento mais apropriado a fazer que progridais, domando em vós o egoísmo e o
orgulho, aquele que dispõe vossa alma à humildade, à beneficência e ao amor do próximo, é a
piedade! piedade que vos comove até às entranhas à vista dos sofrimentos de vossos irmãos,
que vos impele a lhes estender a mão para socorrê-los e vos arranca lágrimas de simpatia.
Nunca, portanto, abafeis nos vossos corações essas emoções celestes; não procedais como
esses egoístas endurecidos que se afastam dos aflitos, porque o espetáculo de suas misérias
lhes perturbaria por instantes a existência álacre. Temei conservar-vos 
indiferentes, quando puderdes ser úteis. A tranqüilidade comprada à custa de uma indiferença
culposa é a tranqüilidade do mar Morto, no fundo de cujas águas se escondem a vasa fétida e
a corrupção.

Quão longe, no entanto, se acha a piedade de causar o distúrbio e o aborrecimento de
que se arreceia o egoísta! Sem dúvida, ao contacto da desgraça de outrem, a alma, voltando-se para si mesma, experimenta um confrangimento natural e profundo, que põe em vibração
todo o ser e o abala penosamente. Grande, porém, é a compensação, quando chegais a dar
coragem e esperança a uni irmão infeliz que se enternece ao aperto de uma mão amiga e cujo
olhar, úmido, por vezes, de emoção e de reconhecimento, para vós se dirige docemente, antes
de se fixar no Céu em agradecimento por lhe ter enviado um consolador, um amparo. A
piedade é o melancólico, nas celeste precursor da caridade, primeira das virtudes que a tem
por irmã e cujos benefícios ela prepara e enobrece. - Miguel. (Bordéus, 1862)

Allan Kardec. Da obra: O Evangelho Segundo o Espiritismo. 112 edição. Capítulo XIII. Item 17. Livro eletrônico gratuito em http://www.febnet. org.br. Federação Espírita Brasileira. 1996. 

* * * Estude Kardec * * *

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