quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Eu sou a CARIDADE


Chamo-me Caridade; sigo o caminho principal que conduz a Deus. Acompanhaime,
pois conheço a meta a que deveis todos visar.
Dei esta manhã o meu giro habitual e, com o coração amargurado, venho dizer-vos:
Oh! meus amigos, que de misérias, que de lágrimas, quanto tendes de fazer para secá-las
todas! Em vão, procurei consolar algumas pobres mães, dizendo-lhes ao ouvido: Coragem! há
corações bons que velam por vós; não sereis abandonadas; paciência! Deus lá está; sois dele
amadas, sois suas eleitas. Elas pareciam ouvir-me e volviam para o meu lado os olhos
arregalados de espanto; eu lhes lia no semblante que seus corpos, tiranos do Espírito, tinham
fome e que, se é certo que minhas palavras lhes serenavam um pouco os corações, não lhes
reconfortavam os estômagos. Repetia-lhes: Coragem! Coragem! Então, uma pobre mãe, ainda
muito moça, que amamentava uma criancinha, tomou-a nos braços e a estendeu no espaço
vazio, como a pedir-me que protegesse aquele entezinho que só encontrava, num seio estéril,
insuficiente alimentação.
Alhures vi, meus amigos, pobres velhos sem trabalho e, em conseqüência, sem abrigo,
presas de todos os sofrimentos da penúria e, envergonhados de sua miséria, sem ousarem,
eles que nunca mendigaram, implorar a piedade dos transeuntes. Com o coração túmido de
compaixão, eu, que nada tenho, me fiz mendiga para eles e vou, por toda a parte, estimular a
beneficência, inspirar bons pensamentos aos corações generosos e compassivos. Por isso é
que aqui venho, meus amigos, e vos digo: Há por aí desgraçados, em cujas choupanas falta o
pão, os fogões se acham sem lume e os leitos sem cobertas. Não vos digo o que deveis fazer;
deixo aos vossos bons corações a iniciativa. Se eu vos ditasse o proceder, nenhum mérito vos
traria a vossa boa ação. Digo-vos apenas: Sou a caridade e vos estendo as mãos pelos vossos
irmãos que sofrem.

Mas, se peço, também dou e dou muito. Convido-vos para um grande banquete e
forneço a árvore onde todos vos saciareis! Vede quanto é bela, como está carregada de flores
e de frutos! Ide, ide, colhei, apanhai todos os frutos dessa magnificente árvore que se chama a
beneficência. No lugar dos ramos que lhe tirardes, atarei todas as boas ações que praticardes e
levarei a árvore a Deus, que a carregará de novo, porquanto a beneficência é inexaurível.
Acompanhai-me, pois, meus amigos, a fim de que eu vos conte entre os que se arrolam sob a
minha bandeira. Nada temais; eu vos conduzirei pelo caminho da salvação, porque sou - a
Caridade. - Cárita, martirizada em Roma. (Lião, 1861.)
14. Várias maneiras há de fazer-se a caridade, que muitos dentre vós confundem com
a esmola. Diferença grande vai, no entanto, de uma para outra. A esmola, meus amigos, é
algumas vezes útil, porque dá alívio aos pobres; mas é quase sempre humilhante, tanto para o
que a dá, como para o que a recebe. A caridade, ao contrário, liga o benfeitor ao beneficiado e
se disfarça de tantos modos! Pode-se ser caridoso, mesmo com os parentes e com os amigos,
sendo uns indulgentes para com os outros, perdoando-se mutuamente as fraquezas, cuidando
não ferir o amor-próprio de ninguém. Vós, espíritas, podeis sê-lo na vossa maneira de
proceder para com os que não pensam como vós, induzindo os menos esclarecidos a crer, mas
sem os chocar, sem investir contra as suas convicções e, sim, atraindo-os amavelmente às
nossas reuniões, onde poderão ouvir-nos e onde saberemos descobrir nos seus corações a
brecha para neles penetrarmos. Eis aí um dos aspectos da caridade.

Escutai agora o que é a caridade para com os pobres, os deserdados deste mundo, mas
recompensados de Deus, se aceitam sem queixumes as suas misérias, o que de vós depende.
Far-me-ei compreender por um exemplo.
Vejo, várias vezes, cada semana, uma reunião de senhoras, havendo-as de todas as
idades. Para nós, como sabeis, são todas irmãs. Que fazem? Trabalham depressa,

muito depressa; têm ágeis os dedos. Vede como trazem alegres os semblantes e como lhes
batem em uníssono os corações. Mas, com que fim trabalham? É que vêem aproximar-se o
inverno que será rude para os lares pobres. As formigas não puderam juntar durante o estio as
provisões necessárias e a maior parte de suas utilidades está empenhada. As pobres mães se
inquietam e choram, pensando nos filhinhos que, durante a estação invernosa, sentirão frio e
fome! Tende paciência, infortunadas mulheres. Deus inspirou a outras mais aquinhoadas do
que vós; elas se reuniram e estão confeccionando roupinhas; depois, um destes dias, quando a
terra se achar coberta de neve e vós vos lamentardes, dizendo: "Deus não é justo'', que é o que
vos sai dos lábios sempre que sofreis, vereis surgir a filha de uma dessas boas trabalhadoras
que se constituíram obreiras dos pobres, pois que é para vós que elas trabalham assim, e os
vossos lamentos se mudarão em bênçãos, dado que no coração dos infelizes o a amor
acompanha de bem perto o ódio.
Como essas trabalhadoras precisam de encorajamento, vejo chegarem-lhes de todos os
lados as comunicações dos bons espíritos. Os homens que fazem parte dessa sociedade lhes
trazem também seu concurso, fazendo-lhes uma dessas leituras que agradam tanto. E nós,
para recompensarmos o zelo de todos e de cada um em particular, prometemos às laboriosas
obreiras boa clientela, que lhes pagará à vista, em bênçãos, única moeda que tem curso no
Céu, garantindo-lhes, além disso, sem receio de errar, que essa moeda não lhes faltará. -
Cárita. (Lião, 1861.)

Meus caros amigos, todos os dias ouço entre vós dizerem: "Sou pobre, não posso
fazer a caridade", e todos os dias vejo que faltais com a indulgência aos vossos semelhantes.
Nada lhes perdoais e vos arvorais em juizes muitas vezes severos, sem quererdes saber se
ficaríeis satisfeitos que do mesmo modo procedessem convosco. Não é também caridade a
indulgência? Vós, que apenas podeis fazer a caridade praticando a indulgência, fazei-a assim,
mas fazei-a largamente. Pelo que toca à caridade material, vou contar-vos uma história do outro mundo.
Dois homens acabavam de morrer. Dissera Deus: Enquanto esses dois homens
viverem, deitar-se-ão em sacos diferentes as boas ações de cada um deles, para que por
ocasião de sua morte sejam pesadas. Quando ambos chegaram aos últimos momentos,
mandou Deus que lhe trouxessem os dois sacos. Um estava cheio, volumoso, atochado, e nele
ressoava o metal que o enchia; o outro era pequenino e tão vazio que se podiam contar as
moedas que continha. Este o meu, disse um, reconheço-o; fui rico e dei muito. Este o meu,
disse o outro, sempre fui pobre, oh! quase nada tinha para repartir. Mas, oh! surpresa! postos
na balança os dois sacos, o mais volumoso se revelou leve, mostrando-se pesado o outro,
tanto que fez se elevasse muito o primeiro no prato da balança. Deus, então, disse ao rico:
deste muito, é certo, mas deste por ostentação e para que o teu nome figurasse em todos os
templos do orgulho e, ao demais, dando, de nada te privaste. Vai para a esquerda e fica
satisfeito com o te serem as tuas esmolas, contadas por qualquer coisa. Depois, disse ao
pobre: Tu deste pouco, meu amigo; mas, cada uma das moedas que estão nesta balança
representa uma privação que te impuseste; não deste esmolas, entretanto, praticaste a
caridade, e, o que vale muito mais, fizeste a caridade naturalmente, sem cogitar de que te
fosse levada em conta; foste indulgente; não te constituíste juiz do teu semelhante; ao
contrário, todas as suas ações lhe relevaste: passa à direita e vai receber a tua recompensa. -
Um Espírito protetor. (Lião, 1861.)

A mulher rica, venturosa, que não precisa empregar o tempo nos trabalhos de sua
casa, não poderá consagrar algumas horas a trabalhos úteis aos seus semelhantes? Compre,
com o que lhe sobre dos prazeres, agasalhos para o desgraçado que tirita de frio; confeccione,
com suas mãos delicadas, roupas grosseiras, mas quentes; auxilie uma mãe a cobrir o filho
que vai nascer. Se por isso seu filho ficar com algumas rendas de menos, o do pobre

terá mais com que se aqueça. Trabalhar para os pobres é trabalhar na vinha do Senhor.
E tu, pobre operária, que não tens supérfluo, mas que, cheia de amor aos teus irmãos,
também queres dar do pouco com que contas, dá algumas horas do teu dia, do teu tempo,
único tesouro que possuis; faze alguns desses trabalhos elegantes que tentam os felizes; vende
o produto dos teus serões e poderás igualmente oferecer aos teus irmãos a tua parte de
auxílios. Terás, talvez, algumas fitas de menos; darás, porém, calçado a um que anda
descalço.
E vós, mulheres que vos votastes a Deus, trabalhai também na sua obra; mas, que os
vossos trabalhos não sejam unicamente para adornar as vossas capelas, para chamar a atenção
sobre a vossa habilidade e paciência. Trabalhai, minhas filhas, e que o produto de vossas
obras se destine a socorrer os vossos irmãos em Deus. Os pobres são seus filhos bem-amados;
trabalhar para eles é glorificá-lo. Sede-lhes a providência que diz: "Aos pássaros do céu dá
Deus o alimento." Mudem-se o ouro e a prata que se tecem nas vossas mãos em roupas e
alimentos para os que não os têm. Fazei isto e abençoado será o vosso trabalho.
Todos vós, que podeis produzir, dai; dai o vosso gênio, dai as vossas inspirações, dai
o vosso coração, que Deus vos abençoará. Poetas, literatos, que só pela gente mundana sois
lidos!... satisfazei-lhe aos lazeres, mas consagrai o produto de algumas de vossas obras a
socorros aos desgraçados. Pintores, escultores, artistas de todos os gêneros!... venha também
a vossa inteligência em auxílio dos vossos irmãos; não será por isso menor a vossa glória e
alguns sofrimentos haverá de menos.
Todos vós podeis dar. Qualquer que seja a classe a que pertençais, de alguma coisa
dispondes que podeis dividir. Seja o que for que Deus vos haja outorgado, uma parte do que
ele vos deu deveis àquele que carece do necessário, porquanto, em seu lugar, muito gostaríeis
que outro dividisse convosco. Os vossos tesouros da Terra serão um pouco menores; contudo,
os vossos tesouros do céu ficarão acrescidos. Lá colhereis pelo cêntuplo o que houverdes semeado em benefícios
neste mundo. - João. (Bordéus, 1861.)

Do Livro : O evangelho segundo o espiritismo






Nenhum comentário:

Postar um comentário