quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?


E, tendo vindo para casa, reuniu-se aí tão grande multidão de gente, que eles
nem sequer podiam fazer sua refeição. - Sabendo disso, vieram seus parentes para se
apoderarem dele, pois diziam que perdera o espírito.

Entretanto, tendo vindo sua mãe e seus irmãos e conservando- se do lodo de fora,
mandaram chamá-lo. - Ora, o povo se assentara em torno dele e lhe disseram: Tua mãe
e teus irmãos estão lá fora e te chamam. - Ele lhes respondeu: Quem é minha mãe e
quem são meus irmãos? E, perpassando o olhar pelos que estavam assentados ao seu
derredor, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos; - pois, todo aquele que faz a
vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe. (S. MARCOS. cap. III,
vv. 20, 21 e 31 a 35 - S. MATEUS, cap. XII, vv. 46 a 50.)

Singulares parecem algumas palavras de Jesus, por contrastarem com a sua
bondade e a sua inalterável benevolência para com todos. Os incrédulos não deixaram de tirar
daí uma arma, pretendendo que ele se contradizia. Fato, porém, irrecusável é que sua doutrina
tem por base principal, por pedra angular, a lei de amor e de caridade. Ora, não é possível que
ele destruísse de um lado o que do outro estabelecia, donde esta conseqüência rigorosa: se
certas proposições suas se acham em contradição com aquele princípio básico, é que as
palavras que se lhe atribuem foram ou mal reproduzidas, ou mal compreendidas, ou não são
suas. 

Causa admiração, e com fundamento, que, neste passo, mostrasse Jesus tanta
indiferença para com seus parentes e, de certo modo, renegasse sua mãe.

Pelo que concerne a seus irmãos, sabe-se que não o estimavam. Espíritos pouco
adiantados, não lhe compreendiam a missão: tinham por excêntrico o seu proceder e seus
ensinamentos não os tocavam, tanto que nenhum deles o seguiu como discípulo. Dir-se-ia
mesmo que partilhavam, até certo ponto, das prevenções de seus inimigos. O que é fato, em
suma, é que o acolhiam mais como um estranho do que como um irmão, quando aparecia à
família. S. João diz, positivamente (cap. VII, v. 5), "que eles não lhe davam crédito".

Quanto à sua mãe, ninguém ousaria contestar a ternura que lhe dedicava. Deve-se,
entretanto, convir igualmente em que também ela não fazia idéia muito exata da missão do
filho, pois não se vê que lhe tenha nunca seguido os ensinos, nem dado testemunho dele,
como fez João Batista. O que nela predominava era a solicitude maternal. Supor que ele haja
renegado sua mãe fora desconhecer- lhe o caráter. Semelhante idéia não poderia encontrar
guarida naquele que disse: Honrai a vosso pai e a vossa mãe. Necessário, pois, se faz
procurar outro sentido para suas palavras, quase sempre envoltas no véu da forma alegórica.

Ele nenhuma ocasião desprezava de dar um ensino; aproveitou, portanto, a que se lhe
deparou, com a chegada de sua família, para precisar a diferença que existe entre a parentela
corporal e a parentela espiritual.

Allan Kardec. Da obra: O Evangelho Segundo o Espiritismo. 112 edição. Capítulo XIV. Itens 5, 6 e 7. Livro eletrônico gratuito emhttp://www.febnet. org.br. Federação Espírita Brasileira. 1996. 

* * * Estude Kardec * * *

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