quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

INJUSTIÇA NA MORTE


 
Quero apresentar aqui um questionamento, forte e expressivo, que recebi via e-mail, e a resposta que apresentei, por achar o assunto pertinente e importante.
 
Para preservar a privacidade e o sigilo, alterei os dados que pudessem identificar a pessoa que me escreveu.
 
O questionamento:
 
"...Olá, tenho algumas dúvidas (na verdade são várias)".
 
No seu artigo intitulado "Como Um Velho Boiadeiro" você diz que: "... as dificuldades e "dores" (morais e/ou físicas) são um sinalizador na estrada de nossa existência, indicando que estamos trilhando hoje um caminho que projetamos e construímos, de forma não adequada, no passado de nossa(s) existência(s)".
 
Para você, a dor de perder alguém (morte) está incluída nessas "dificuldades e dores"? A pessoa que perdeu um ente querido tinha que passar por aquilo? De acordo com os seus outros artigos, acho que não, né?
 
Na verdade faço essa pergunta pois perdi meu marido há alguns meses, em um acidente e não consigo me conformar/aceitar. Vou explicar como aconteceu para você entender o motivo da minha revolta: meu marido era caminhoneiro e um ônibus que vinha em sentido contrário, perdeu o controle em uma curva (pista molhada) e atingiu meu marido. A partir daí fico questionando: cadê a justiça de Deus? Se meu marido estava certo por que Deus não o protegeu? Era só ter feito ele atrasar ou adiantar alguns SEGUNDOS. O motorista do ônibus não fez de propósito, ele perdeu o controle, foi sem querer. Claro que ele deveria ter tomado mais cuidado já que estava numa curva e a pista estava molhada. Mas mesmo assim, cadê o Livre Arbítrio aqui? Quantas curvas com pista molhada esse motorista já não deveria ter feito? Ele tinha que perder o controle logo quando meu marido estava passando?
 
E eu tinha que ficar viúva aos XX anos, com tantos sonhos que tínhamos para realizar juntos? Eu simplesmente vou ter que aceitar? Por que alguns vivem 80 anos bem e outros não?
 
Pra mim, muitas vezes, morrer é uma questão de azar e sorte. Meu marido teve o AZAR de estar no lugar errado na hora errada. Assim como uma pessoa que é estuprada tem o azar de o estuprador se interessar por ela ou, ainda, de uma pessoa que está na calçada ter o azar de um motorista perder o controle e ir "pra cima" dela. Deve parecer ridículo pra você, mas é assim que eu consigo pensar. O estuprador, por exemplo, teve o livre arbítrio, mas a pessoa que foi estuprada teve o AZAR de ser escolhida entre milhares.
 
Desculpa o desabafo, mas estou REVOLTADA, fico tentando achar respostas para tantas perguntas, mas quanto mais eu penso menos eu me conformo.
 
Ah, adoro seus artigos, são muito esclarecedores, já li vários, inclusive os da série "Ninguém morre antes da hora?" e concordo com você em relação a não ter uma hora já determinada. Mas acho injusto fazermos tudo certo, termos tantos sonhos e morrermos por culpa do outro.
 
Um grande abraço!
 
Maria (nome fictício)...".
 
A resposta:
 
Olá   Maria (nome fictício)
 
Primeiro quero dizer que lamento a sua dor e sofrimento. E rogo a Deus que te ilumine, para que teu coração se asserene. E que o amor que tem dentro de você, em trabalho pelos que aqui ficaram, dilua a tua dor, até que dela fique aquilo que devemos ter por que partiu - saudades - , enquanto esperamos o momento do reencontro.
 
Efetivamente, ninguém tem forma, data e hora marcada para morrer, e assim sendo, a perda de entes queridos não faz parte da "programação" de nossa vida, até porque essa "programação", no sentido determinístico, não existe.
 
Quero te lembrar de algumas coisas:
 
a) Deus não pode interferir na vida e na decisão de ninguém, pois se o fizesse, o livre arbítrio estaria violado. Nem pode Deus interferir nas Leis Naturais e Físicas, porque já são perfeitas. Assim sendo, não haveria como Deus interferir para "livrar" seu marido do fatal acidente. Não há injustiça nenhuma nisso, é só uma impossibilidade, não no caso de seu marido, mas em qualquer caso. E havia sim o livre arbítrio do motorista do ônibus, que decidiu andar  em velocidade maior que o recomendado ou em situação não recomendada para as condições da pista. E por isso, assumiu a responsabilidade pelo acidente. Em havendo livre arbítrio, não haveria como Deus "intervir". Ele (o motorista do ônibus) é o único responsável, mesmo que   não propositadamente ou mesmo não conscientemente,  por "perder o controle de seu veículo". E não o estou julgando ou condenando por isso, apenas constatando responsabilidade espiritual. Não há "azar" ou "sorte" na vida, tudo são conseqüências de nossos atos e decisões, inclusive de estar no "local errado e na hora errada".
 
b) Nunca podemos nos comparar aos outros, pois que estamos sujeitos à fatos, oportunidades e decisões diferentes dos demais. Isso é decorrência do que fomos, do que somos, do que fazemos, do que deixamos de fazer  e ao que e de que forma nos expomos. Não há nenhuma injustiça em sermos diferentes dos outros, seja na felicidade, na dor, muito pelo contrário.
 
c) Do ponto de vista da Lei Divina ou Natural, não há "injustiças" em nosso mundo, o Planeta Terra. Estamos em um mundo de "Expiações e Provas", em um mundo onde o mal ainda impera. Se nascemos aqui é que MERECEMOS NASCER NESTE MUNDO, PELOS NOSSOS ERROS DO PASSADO E PELA NOSSA IMPERFEIÇÃO MORAL. Assim sendo, que injustiça há em estarmos expostos ao mal, a dor e ao sofrimento? Como podemos dizer que há injustiça no que acontece aos outros ou a nós, se FIZEMOS POR MERECER ESTAR ENCARNADOS NESTE MUNDO e, em decorrência, estarmos expostos à dor, ao sofrimento e ao mal?
 
Como querer que Deus evite a dor e o sofrimento para nós e para quem amamos, SE ESCOLHEMOS LIVREMENTE REENCARNAR NESTE MUNDO?
 
d) Não há nenhuma injustiça em passarmos pela dor. Estamos aqui pela nossa livre e espontânea vontade e decisão, em razão de nosso comportamento no passado. Como então nos REVOLTARMOS CONTRA ISSO? A revolta deveria ser contra nós mesmos, por termos sidos invigilantes e inconseqüentes no passado.
 
É verdade que você está passando por uma dor que até mesmo não teria que passar, mas é assim que a vida se processa neste Planeta: o livre arbítrio de uns altera o destino de outros. E tudo é justo, pois que "escolhemos" estar expostos a esta situação.
 
Prezada Maria, asserene teu coração.
 
Busque   amparo e proteção na prece.
 
Você é jovem e deve dedicar o imenso amor que existe em você, em benefício dos outros e de você mesma.
 
O sofrimento da perda é normal, mas não se entregue a ele. Confie em Deus. Busque ajuda espiritual em uma casa espírita bem orientada. De tempo ao tempo, e sua vida se reconstruirá.
 
Grande e fraterno abraço.
 
"..Vigiai e orai...".
 
* * *
 
 
 
Com esta mensagem eletrônica
seguem muitas vibrações de paz e amor
para você
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