sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Consciência Ferida


Meus amigos.

Deus nos ampare.

Depois de minha primeira visita, eis que torno
à vossa casa, que funcionou para mim como um ninho
de socorro e um tribunal de justiça.

Mulher padecente, trazia enlaçado a mim, qual se fora
erva sufocante sobre árvore ferida, o espírito revoltado de
meu próprio filho, cuja reencarnação impedi,num processo
de aborto, no qual, por minha vez, perdi a existência.

Leviana e surda ao dever, adquiri compromissos com
a maternidade, detestando-a.

E, por odiar o rebento que me palpitava no seio, procurei
destruí-lo, usando venenosa beberagem que igualmente
me furtou a vida corpórea.

Entretanto, se supunha que a morte fosse um ponto final
à minha tragédia íntima, estava profundamente enganada,
porque da poça de sangue a que se me reduziram os despojos,
levantou-se, diante de mim, uma sombra acusadora.

A princípio, dessa nuvem amorfa nascia o choro incessante
de uma criança recém-nata.

Tentando emudecer aqueles vagidos angustiosos, inutilmente
rezei, usando orações decoradas na infância...

A nuvem, porém, jazia algemada ao meu próprio peito,
através de laços cuja consistência ainda hoje não posso
definir.

Abandonei, amedrontada, o meu aposento de mulher
solteira e, esquecendo o culto do prazer a que me dedicara,
procurei fugir, como se eu pudesse escapar de mim mesma.

Perdi a idéia de rumo...

Esqueci o calendário.

De minha memória desapareceu a noção de tempo.

Guardava a consciência de que a nuvem e eu corríamos
sem cessar...

Houve, contudo, um momento em que a sombra se
converteu na forma de um homem, que me perseguia,
amaldiçoando:

- Desnaturada! Assassina!.. . Assassina!.. .

Anelei, assim, depois da morte, a vinda de outra morte
que me afundasse no esquecimento.

Sentindo sede, debruçava-me no charco...

Torturada de fome, atirava-me aos detritos dos animais
mortos no campo...

Ah! como será possível alguém adivinhar na Terra,
enquanto a bênção do corpo físico é uma graça para
o espírito que opera entre os homens, o tormento
da consciência que edificou em si mesma o inferno que
a envolve?

Minha existência passou a ser um suplício constante,
terrível, inominável...

Chegou, todavia, a noite em que, à maneira de náufrago
fatigado, vim dar à praia de vosso templo.

Mãos amigas apartaram-me da sombra agressiva a
que me prendia, agoniada...

O alívio surgiu, por fim...

Entretanto, de alma conturbada, roguei esclarecimento
para o meu desvario, embora conhecendo a minha
culpa de pecadora penitente.

Recebi, de imediato, a resposta.

Um de vossos amigos - justamente aquele que me
acompanha aqui, nesta noite, com fins educativos - submeteu-
me a longa intervenção magnética e, fazendo com
que minhas reminiscências recuassem no tempo, vi-me
no Rio, menina malnascida, amparada por nobre mulher.

Para ser mais explícita, devo adiantar que essa criatura
era Dona Mariana Carlota, a Condessa de Belmonte,
aia do Imperador D. Pedro II, ainda criança.

Fui conduzida ao leito de pálida menina enferma, que
morria pouco a pouco...
Essa menina era a Princesa Dona Paula, que se afeiçoou
a mim, com natural carinho.

Mas, por morte dela, eu ficava aos treze anos novamente
desamparada.

No entanto, benfeitores do palácio estenderam-me
braços generosos e fui mantida em São Cristóvão, na
posição de criada humilde.

Aos vinte de idade, desposei um artesão da Casa Real.

Miguel era o nome de meu marido.

Duas filhas vieram ao nosso encontro.

A tentação dos prazeres carnais, porém, fascinava-me
o espírito inferior.

Foi assim que aceitei a proposta indigna de um homem
que me arrancou do lar para delituosa aventura.

Na tela de minhas recordações, surgiu então a noite do
dia 4 de setembro de 1843, noite festiva que consagrou o
casamento daquele que era o Imperador do Brasil.

Mulher moça, esposa e mãe, olvidei minhas obrigações
e fui à procura de quem passara a ser o adversário de
minha felicidade, a fim de receber-lhe a companhia, na
rua Direita, junto ao Arco do Triunfo, com o qual se
comemorava a grande cerimônia.

O Rio, nessa data, acolhia a nova imperatriz dos brasileiros.

É necessário me detenha nesses fatos - esclarece o benfeitor
que me auxilia -, para marcar em nossa lição que o
tempo não desaparece com o passado, continuando vivo
em nosso presente, como estará também vivo para nós,
no grande futuro...

Na noite a que me reporto, fui surpreendida por meu
esposo, numa atitude de desconsideraçã o aos compromissos
que abraçara.

Miguel não resistiu.

Respondeu-me à loucura com o suicídio.

Transformou- se-me, então, a vida.

Dificuldades sobrevieram.

Enjeitei minhas filhas.

Partilhei o destino do aventureiro que, em seguida à
minha irreflexão, me atirou ao resvaladouro das mulheres
de ninguém...

Entretanto, a sombra de meu companheiro suicida
nunca mais se apagou de meus passos.

Seguiu-me, não obstante desencarnado, agravou-me
as provações e reuniu-se a mim, quando me desliguei do
corpo de carne, num asilo de alienados mentais, depois
de atribulada peregrinação pelo meretrício.

Escuros tempos assomaram-me à lembrança.

O caminho expiatório é um trilho de sofrimentos e
reparações, e nós éramos dois condenados, respirando a
escuridão de noite profunda...

Uma noite imensa, povoada de gemidos, de blasfêmias,
de dor... até que renasci na carne, novamente em corpo de
mulher. Amando-me e odiando-me ao mesmo tempo,
Miguel intentara ser meu filho, contudo, arruinei-lhe os
propósitos, recusando a maternidade menos feliz, retornando
nós dois, desse modo, às trevas de onde vínhamos.

Agora, tudo de novo a recomeçar...

Um século,meus amigos...

Um século de um erro a outro erro...

Vede o martírio da mulher que em cem anos nada
mais fez senão transviar-se por invigilância!

De 1943 até o ano findo, padecimentos novos me exacerbaram
a luta, até que a prece e o amor me socorreram.

Venho, pois, compartilhar- vos a oração, a fim de que
me renove, de modo a partir dignamente ao encontro do
esposo que buscou reaproximar- se de mim, na condição
de filho, para, de alguma sorte, ensaiarmos juntos a jornada
reparadora.

Com a presente narrativa, não tenho outro intuito
senão dizer-vos que a vida está continuando. ..

Que o trabalho não cessa...

Que o tempo não morre...

E que ai daqueles que caem, porque o soerguimento,
muitas vezes, constitui fogo e fel no coração.

Sou um Espírito em reajuste.

Alguém que vos bate à porta, rogando amparo.

Pobre mulher que fala às outras, avisando-as quanto
ao flagelo que nos aguarda, cada vez que o nosso coração
foge aos princípios superiores da senda de elevação...

Expresso-me, assim, porque os homens, até certo
ponto, são produto de nossa influência e domínio.

Os homens que nos partilham o leito, que se nutrem do
pão que amassamos, que nos absorvem os pensamentos e
que nos ouvem as palavras são nossos filhos e nossos irmãos,
dependendo de nós para a vitória da Justiça e do Bem.

Que o Senhor nos dê consciência de nosso mandato!
Que as companheiras presentes me ajudem com as suas
preces, aproveitando igualmente a experiência aflitiva da
mísera irmã que, em se perdendo, há tanto tempo, ainda
não conseguiu recuperar-se. ..

Que Deus nos ilumine!...

Xavier, Francisco Cândido. Da obra: Instruções Psicofônicas. Ditado pelo Espírito Maria da Glória. Capítulo 29. Rio de Janeiro: FEB. 

* * * Estude Kardec * * *

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