domingo, 17 de junho de 2012

Mito, Rito e Religião


É necessário deixar bem claro, nesta tentativa de conceituar o *mito*, que
o mesmo não tem aqui a conotação usual de fábula, lenda, invenção, ficção,
mas a acepção que lhe atribuíam e ainda atribuem as sociedades arcaicas, as
impropriamente denominadas culturas primitivas, onde mito é o relato de um
acontecimento ocorrido no tempo primordial, mediante a intervenção de entes
sobrenaturais. Em outros termos, mito, é o relato de uma história
verdadeira, ocorrida nos tempos dos princípios, quando com a interferência
de entes sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade
total, o cosmo, ou tão-somente um fragmento, um monte, uma pedra, uma ilha,
uma espécie animal ou vegetal, um comportamento humano. Mito é, pois, a
narrativa de uma criação: conta-nos de que modo algo, que não era, começou
a ser.

De outro lado, o mito é sempre uma representação coletiva, transmitida
através de várias gerações e que relata uma explicação do mundo. Mito é,
por conseguinte, a *parole*, a palavra "revelada", o dito. E, desse modo,
se o mito pode se exprimir ao nível da linguagem, "ele é, antes de tudo,
uma palavra que circunscreve e fixa um acontecimento" . "O mito é sentido e
vivido antes de ser inteligido e formulado. Mito é a palavra, a imagem, o
gesto, que circunscreve o acontecimento no coração do homem, emotivo como
uma criança, antes de fixar-se como narrativa".

O mito expressa o mundo e a realidade humana, mas cuja essência é
efetivamente uma representação coletiva, que chegou até nós através de
várias gerações. E, na medida em que pretende explicar o mundo e o homem,
isto é, a complexidade do real, o mito não pode ser lógico: ao revés, é
ilógico e irracional. Abre-se como uma janela a todos os ventos; presta-se
a todas as interpretações. Decifrar o mito é, pois, decifrar-se. E, como
afirma Roland Barthes, o mito não pode, conseqüentemente, "ser um objeto,
um conceito ou uma idéia: ele é um modo de significação, uma forma". Assim,
não se há de definir o mito "pelo objeto de sua mensagem, mas pelo modo
como a profere".

É bem verdade que a sociedade industrial usa o mito como expressão de
fantasia, de mentiras, daí mitomania, mas não é este o sentido que
hodiernamente se lhe atribui.

O mesmo Roland Barthes, aliás, procurou reduzir, embora significativamente,
o conceito de mito, apresentando- o como qualquer forma substituível de uma
verdade. Uma verdade que esconde outra verdade. Talvez fosse mais exato
defini-lo como uma verdade profunda de nossa mente. É que poucos se dão ao
trabalho de verificar a verdade que existe no mito, buscando apenas a
ilusão que o mesmo contém. Muitos vêem no mito tão-somente os
significantes, isto é, a parte concreta do signo. É mister ir além das
aparências e buscar-lhe os significados, quer dizer, a parte abstrata, o
sentido profundo.

Talvez se pudesse definir mito, dentro do conceito de Carl Gustav Jung,
como a conscientizaçã o de arquétipos do inconsciente coletivo, quer dizer,
um elo entre o consciente e o inconsciente coletivo, bem como as formas
através das quais o inconsciente se manifesta.

Compreende-se por *inconsciente coletivo* a herança das vivências das
gerações anteriores. Desse modo, o inconsciente coletivo expressaria a
identidade de todos os homens, seja qual for a época e o lugar onde tenham
vivido.

*Arquétipo*, do grego *"arkhétypos" *, etimologicamente, significa modelo
primitivo, idéias inatas. Como conteúdo do inconsciente coletivo foi
empregado pela primeira vez por Yung. No mito, esses conteúdos remontam a
uma tradição, cuja idade é impossível determinar. Pertencem a um mundo do
passado, primitivo, cujas exigências espirituais são semelhantes às que se
observam entre culturas primitivas ainda existentes. Normalmente, ou
didaticamente, se distinguem dois tipos de imagens:

*a)* imagens (incluídos os sonhos) de caráter pessoal, que remontam a
experiências pessoais esquecidas ou reprimidas, que podem ser explicadas
pela anamnese individual;

*b)* imagens (incluídos os sonhos) de caráter impessoal, que não podem ser
incorporados à história individual. Correspondem a certos elementos
coletivos: são hereditárias.

A palavra textual de Jung ilustra melhor o que expôs: "Os conteúdos do
inconsciente pessoal são aquisições da existência individual, ao passo que
os conteúdos do inconsciente coletivo são arquétipos que existem sempre *a
priori*.

Embora se tenha que admitir a importância da tradição e da dispersão por
migrações, casos há e muito numerosos em que essas imagens pressupõem uma
camada psíquica coletiva: é o inconsciente coletivo. Mas, como este não é
verbal, quer dizer, não podendo o inconsciente se manifestar de forma
conceitual, verbal, ele o faz através de *símbolos*. Atente-se para a
etimologia de *símbolo*, do grego *"sýmbolon"*, do verbo "*symbállein* ",
"lançar com", arremessar ao mesmo tempo, "com-jogar". De início, símbolo
era um sinal de reconhecimento: um objeto dividido em duas partes, cujo
ajuste e confronto permitiam aos portadores de cada uma das partes se
reconhecerem. O símbolo é, pois, a expressão de um conceito de
eqüivalência. Assim, para se atingir o mito, que se expressa por símbolos,
é preciso fazer uma *eqüivalência* , uma "con-jugação", uma "re-união",
porque, se o signo é sempre menor do que o conceito que representa, o
símbolo representa sempre mais do que seu significado evidente e imediato.

Em síntese, os mitos são a linguagem imagística dos princípios. "Traduzem"
a origem de uma instituição, de um hábito, a lógica de uma gesta, a
economia de um encontro.

Na expressão de Goethe, os mitos são as relações permanentes da vida.

Se mito é, pois, uma representação coletiva, transmitida através de várias
gerações e que relata uma explicação do mundo, então o que é *mitologia*?

Se *mitologema* é a soma dos elementos antigos transmitidos pela
tradição e*mitema
* as unidades constitutivas desses elementos, *mitologia* é o "movimento"
desse material: algo de estável e mutável simultaneamente, sujeito,
portanto, a transformações. Do ponto de vista etimológico, mitologia é o
estufo dos mitos, concebidos como história verdadeira.

Quanto à *religião*, do latim "*religione* ", a palavra possivelmente se
prende ao verbo "*religare*" , ação de ligar.

Religião pode, assim, ser definida como o conjunto das atitudes e atos
pelos quais o homem se *prende*, *se liga* ao divino ou manifesta sua
dependência em relação a seres invisíveis tidos como sobrenaturais.
Tomando-se o vocábulo num sentido mais estrito, pode-se dizer que a
religião para os antigos é a reatualização e a ritualização do mito. O rito
possui, "o poder de suscitar ou, ao menos, de reafirmar o mito".

Através do rito, o homem se incorpora ao mito, beneficiando- se de todas as
forças e energias que jorraram nas origens. A ação ritual realiza no
imediato uma transcendência vivida. O rito toma, nesse caso, "o sentido de
uma ação essencial e primordial através da referência que se estabelece do
profano ao sagrado". Em resumo: o rito é a praxis do mito. É o mito em
ação. O mito rememora, o rito comemora.

Rememorando os mitos, reatualizando- os, renovando-os por meio de certos
rituais, o homem torna-se apto a repetir o que os deuses e os heróis
fizeram "nas origens", porque conhecer os mitos é aprender o segredo da
origem das coisas. "E o rito pelo qual se exprime (o mito) reatualiza
aquilo que é ritualizado: re-criação, queda, redenção". E conhecer a origem
das coisas - de um objeto, de um nome, de um animal ou planta - "eqüivale a
adquirir sobre as mesmas um poder mágico, graças ao qual é possível
dominá-las, multiplicá-las ou reproduzí-las à vontade". Esse retorno às
origens, por meio do rito, é de suma importância, porque "voltar às origens
é readquirir as forças que jorraram nessas mesmas origens". Não é em vão
que na Idade Média muitos cronistas começavam suas histórias com a origem
do mundo. A finalidade era recuperar o tempo forte, o tempo primordial e as
bênçãos que jorraram *illo tempore*.

Além do mais, o rito, reiterando o mito, aponta o caminho, oferece um
modelo exemplar, colocando o homem na contemporaneidade do sagrado. É o que
nos diz, com sua autoridade, Mircea Eliade: "Um objeto ou um ato não se
tornam reais, a não ser na medida em que repetem um arquétipo. Assim a
realidade se adquire exclusivamente pela repetição ou participação; tudo
que não possui um modelo exemplar é vazio de sentido, isto é, carece de
realidade".

O rito, que é o aspecto litúrgico do mito, transforma a palavra em *verbo*,
sem o que ela é apenas l*enda*, "legenda", o que deve ser lido e não mais
proferido.

À idéia de reiteração prende-se a idéia de *tempo*. O mundo transcendente
dos deuses e heróis é religiosamente acessível e reatualizável, exatamente
porque o homem das culturas primitivas não aceita a irreversibilidade do
tempo: o rito abole o tempo profano, cronológico, é linear e, por isso
mesmo, irreversível (pode-se "comemorar" uma data histórica, mas não
fazê-la voltar no tempo), o tempo mítico, ritualizado, é circular, voltando
sempre sobre si mesmo. É precisamente essa reversibilidade que liberta o
homem do peso do tempo morto, dando-lhe a segurança de que ele é capaz de
abolir o passado, de recomeçar sua vida e recriar seu mundo. O profano é
tempo da vida; o sagrado, o "tempo" da eternidade.

A "consciência mítica", embora rejeitada no mundo moderno, ainda está viva
e atuante nas civilizações denominadas primitivas: "O mito, quando estudado
ao vivo, não é uma explicação destinada a satisfazer a uma curiosidade
científica, mas uma narrativa que faz reviver uma realidade primeva, que
satisfaz as profundas necessidades religiosas, aspirações morais, a
pressões e a imperativos de ordem social e mesmo a exigências práticas. Nas
civilizações primitivas, o mito desempenha uma função indispensável: ele
exprime, exalta e codifica a crença; salvaguarda e impõe os princípios
morais; garante a eficácia do ritual e oferece regras práticas para a
orientação do homem. O mito é um ingrediente vital da civilização humana;
longe de ser uma fabulação vã, ele é, ao contrário, uma realidade viva, à
qual se recorre incessantemente; não é, absolutamente, uma teoria abstrata
ou uma fantasia artística, mas uma verdadeira codificação da religião
primitiva e da sabedoria prática".

Leia mais: http://www.mundodos filosofos. com.br/mito. htm#ixzz1xuEnFxZ D

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*
Beau Geste*

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