quinta-feira, 21 de junho de 2012

Os Bons Espíritas



Bem compreendido, mas sobretudo bem sentido, o Espiritismo leva aos resultados
acima expostos, que caracterizam o verdadeiro espírita, como o cristão verdadeiro, pois que
um o mesmo é que outro. O Espiritismo não institui nenhuma nova moral; apenas facilita aos
homens a inteligência e a prática da do Cristo, facultando fé inabalável e esclarecida aos que
duvidam ou vacilam.

Muitos, entretanto, dos que acreditam nos fatos das manifestações não lhes apreendem
as conseqüências, nem o alcance moral, ou, se os apreendem, não os aplicam a si mesmos. A
que atribuir isso? A alguma falta de clareza da Doutrina? Não, pois que ela não contém
alegorias nem figuras que possam dar lugar a falsas interpretações. A clareza e da sua
essência mesma e é donde lhe vem toda a força, porque a faz ir direito à inteligência. Nada
tem de misteriosa e seus iniciados não se acham de posse de qualquer segredo, oculto ao
vulgo.

Será então necessária, para compreendê-la, uma inteligência fora do comum? Não,
tanto que há homens de notória capacidade que não a compreendem, ao passo que
inteligências vulgares, moços mesmo, apenas saídos da adolescência, lhes apreendem, com
admirável precisão, os mais delicados matizes. Provém isso de que a parte por assim dizer
material da ciência somente requer olhos que observem, enquanto a parte essencial exige um
certo grau de sensibilidade, a que se pode chamar maturidade do senso moral, maturidade que
independe da idade e do grau de instrução, porque é peculiar ao desenvolvimento, em sentido
especial, do Espírito encarnado.

Nalguns, ainda muito tenazes são os laços da matéria para permitirem que o Espírito
se desprenda das coisas da Terra; a névoa que os envolve tira-lhes a visão do infinito, donde
resulta não romperem facilmente com os seus pendores nem com seus hábitos, não
percebendo haja qualquer coisa melhor do que aquilo de que são dotados. Têm a crença nos
Espíritos como um simples fato, mas que nada ou bem pouco lhes modifica as tendências
instintivas. Numa palavra: não divisam mais do que um raio de luz, insuficiente a guiá-los e a
lhes facultar uma vigorosa aspiração, capaz de lhes sobrepujar as inclinações. Atêm-se mais
aos fenômenos do que a moral, que se lhes afigura cediça e monótona. Pedem aos Espíritos
que incessantemente os iniciem em novos mistérios, sem procurar
saber se já se tornaram dignos de penetrar Os arcanos do Criador. Esses são os espíritas
imperfeitos, alguns dos quais ficam a meio caminho ou se afastam de seus irmãos em crença,
porque recuam ante a obrigação de se reformarem, ou então guardam as suas simpatias para
os que lhes compartilham das fraquezas ou das prevenções. Contudo, a aceitação do princípio
da doutrina é um primeiro passo que lhes tornará mais fácil o segundo, noutra existência.

Aquele que pode ser, com razão, qualificado de espírita verdadeiro e sincero, se acha
em grau superior de adiantamento moral. O Espírito, que nele domina de modo mais
completo a matéria, dá-lhe uma percepção mais clara do futuro; os princípios da Doutrina lhe
fazem vibrar fibras que nos outros se conservam inertes. Em suma: é tocado no coração, pelo
que inabalável se lhe torna a fé. Um é qual músico que alguns acordes bastam para comover,
ao passo que outro apenas ouve sons. Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua
transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más.
Enquanto um se contenta com o seu horizonte limitado, outro, que apreende alguma coisa de
melhor, se esforça por desligar-se dele e sempre o consegue, se tem firme a vontade.

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. FEB. Capítulo 17. 

* * * Estude Kardec * * *

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