segunda-feira, 9 de julho de 2012

CONSIDERAÇÕES SOBRE ESPIRITISMO CIENTÍFICO



Luiz Signates
 
Resumo: Conceito de ciência e de metodologia científica. Discussão dos elementos sobre os quais devem repousar quaisquer propostas que relacionem Espiritismo à ciência.
 
Para trabalharmos a análise conceitual e prática do que denominamos Espiritismo científico, é indispensável meditar a respeito do que chamamos ciência. O que vem a ser esse processo intelectual tão recente na história humana, mas que ascende na cultura do século como atividade tão importante que já nos é impraticável pensar a vida sem ela? Diz Ernesto Sábato (19--, p. 18) que “durante séculos, o homem comum teve mais fé na feitiçaria do que na ciência: para ganhar a vida, Kepler necessitou trabalhar como astrólogo; hoje, os astrólogos anunciam nos jornais que seus procedimentos são estritamente científicos. O cidadão crê com fervor na ciência e adora Einstein e Madame Curie”. O que vem a ser e como surgiu essa tal ciência?
 
Segundo Boaventura Sousa Santos (1989), a ciência moderna se constitui a partir do momento em que o saber sistematizado, separado do senso comum, se prende ao estudo das coisas. Na Grécia  antiga,  Platão  fizera  a  distinção  entre  três  tipos  de  conhecimento:  doxa (opinião), episteme sofia. De Aristóteles a Francis Bacon, conhecimento científico era aquele que visasse relacionar cada efeito a umacausa. No século dezoito, o filósofo escocês David Hume investiu vigorosamente contra essa noção de causalidade. Para ele, o máximo que se pode dizer é que um fenômeno precede o outro, e não que o causa. Em seguida, passou-se a trabalhar com o conceito de função, e a tarefa do cientista tornou-se investigar as relações de função existentes entre os fenômenos.
 
O dicionarista Aurélio (1982) definiu ciência como o “processo pelo qual o homem se relaciona com a natureza, visando dominá-la em seu próprio benefício”. É que, desde Galileu, a ciência deixou de ser contemplativa e tornou-se experimental, isto é, baseada na observação e na experimentação da realidade, visando submetê-la, dominá-la, o que fez com que a história social passasse a ser grandemente estruturada pela atividade científica, tornada tecnológica e, por sua vez, convertida em industrial. O domínio da natureza, surgido com a eclosão do humanismo, que arrancou Deus e colocou o homem no centro do Universo, engendrou tecnologias, alterou o panorama cultural e transformou radicalmente a sociedade.
 
O primeiro momento, cujo ápice ocorreu nos séculos dezoito e dezenove, foi de embevecimento.  Enfim, descobrira o homem o caminho seguro da verdade. Recém-saído da opressão católica romana, o intelectual julgou haver encontrado na Razão a nova deusa e na ciência o método da verdade definitiva. Ainda hoje encontramos os que alimentam essa visão romântica da ciência. “A ciência — diz Fernando Gewandsznajder (19--, p. XII) — pode e deve ser vista como uma estimulante busca do homem para descobrir as leis da natureza”. Ernest Nagel defende que “o cientista é membro de uma comunidade intelectual dedicada à perseguição da verdade”. O pesquisador, segundo esse modelo, é o novo cavaleiro medieval, que se veste da armadura da inteligência, empunha a lança do método científico e sai, valoroso e intrépido, para terçar armas com a natureza, arrancando dela os fatos e suas condicionantes, e salvar de suas garras de ignorância a bela princesa Verdade. Uma vez encontrada e libertada dos ferozes tentáculos da superstição e do senso vulgar, a amada desposa-se com o cavaleiro e seu herdeiro chama-se Certeza. Ainda hoje, há os que crêem nos poderes mágicos da ciência e na indiscutível honradez do cientista, esse mago que pronuncia uma fórmula e extingue a ignorância.
 
O mito de que a ciência é sinônimo de verdade é posto em questão de três formas diferentes: uma cujo enfoque é mais metodológico, uma outra com sentido metodo-epistemológico e a última centrada numa abordagem mais epistemológica.
 
As discussões metodológica e a metodo-epistemológica surgem por reação ao positivismo e aos neo-positivistas: a primeira, de Auguste Comte ao Círculo de Viena, a partir do rompimento de Karl Popper com este último; e, a segunda, a reação dos filósofos ligados à teoria crítica e encabeçados sobretudo pela Escola de Frankfurt contra o próprio Popper, também categorizado por estes pensadores como neo-positivista.
 
O rompimento de Karl Popper se deveu à contestação feita por ele contra o “método da verificabilidade”, cujo princípio basilar é o de que o conhecimento surge a partir da acumulação dos experimentos e dos fatos. Um critério confirmatório, contra o qual o festejado epistemólogo insurge, afirmando que (19--, p. 278) “a ciência não é um sistema de declarações certas e bem estabelecidas; nem é ela um sistema que avança para um estado final. Nossa ciência não é conhecimento (episteme): ela não pode nunca pretender haver atingido a verdade, nem mesmo um substituto para ela, como a probabilidade”. Segundo Popper, na transitoriedade do saber científico está justamente a sua virtude, que o destaca das demais formas humanas de percepção da natureza. O saber transitório existe, em princípio, destituído de dogmas e cristalizações, e, assim, por jamais pretender-se verdadeira, a ciência demonstraria sua validade.
 
Esse modelo de pensamento prevaleceu até o final da década de 50, mas seria um admirador de Popper quem o criticaria mais vigorosamente: Thomas Kuhn, que lança o conceito de ciência como construção social e afirma que a lógica popperiana não acontece na realidade. Há uma ciência normal, construída a partir de crenças  majoritariamente  admitidas  pela comunidade dos cientistas, a que esse autor denominou paradigma, e que, de tempos em tempos, é  rompida  por  uma  nova  ordem  de idéias,  numa  revolução  científica.  Aprofundando nesse conceito, Boaventura Santos constrói uma espécie de“teoria argumentativa da ciência”, segundo a qual o cientista trabalha pelo auto-convencimento, mas constrói o seu discurso de forma metodológica, objetivando convencer seus pares. O método, destarte, seria uma estratégia argumentativa, de convencimento, vinculada à antecipação que o pesquisador faz do seu auditório, e não uma descrição do fazer ciência. Ciência, portanto, é uma atividade social, como qualquer outra. Ante o corte epistemológico iniciado em Platão (separação doxa-episteme), que fundamentou o surgimento da ciência moderna, a partir de Bacon, na filosofia, e Galileu, na ciência (separação ciência-senso vulgar), denominado por Boaventura Santos como sendo “a primeira ruptura”, este autor defende uma segunda ruptura: a ruptura da ruptura, com o retorno do saber científico ao senso comum, isto é, que as ciências (inclusive das naturais) se submetam aos referenciais da sociedade.
 
A terceira  dimensão  da crítica  à ciência  é ainda mais  radical  e não se contenta  em questionar seu método ou sua epistemologia, e sim a natureza da própria racionalidade. É que a luta  que  originou  o  processo  científico,  com  o  fim  da  Idade  Média,  era  voltada  contra  a dominação   religiosa   que  prevaleceu   durante   aquele  período.   Contudo, como que num movimento pendular, a batalha contra o dogma e a superstição acabou fazendo da ciência um dogma. É o que pensa, por exemplo, Ernesto Sábato (Ob. cit., p. 35): “...os séculos XVIII e XIX desencadearam uma espécie particularmente perigosa de dogmatismo: o científico. É certo que, em nosso século, alguns dos maiores epistemólogos recomendaram a cautela e a modéstia; mas o homem comum, impressionado pelo desenvolvimento da técnica, não vê essas dúvidas teóricas, e adquiriu a mais singular das superstições:  a da ciência; que é como dizer que adquiriu a superstição  de  que  não  se  deve  ser  supersticioso.  (...)  a  ciência  se  tornou  crescentemente poderosa e abstrata, isto é, misteriosa; para o cidadão se converteu numa espécie da magia, que tanto mais respeita quanto menos compreende”.
 
A ciência é o mito do Olimpo da época atual. E o pior: um mito que é baseado mais na ignorância do que no saber, apesar das aparências. Bernard Dixon, no excelente livro Para que serve a  ciência?  (p. 10), sugere que peçamos a meia dúzia de contadores, açougueiros ou advogados para descreverem como transcorre seu trabalho diário, e eles terão pouca dificuldade em fazê-lo, podendo isso ser razoavelmente feito até por leigos. O mesmo não ocorre com a ciência, opina Dixon, para quem “... os cientistas aparecem numa variedade de facetas — remotos, excêntricos, mágicos, perigosos, ingênuos. Mas há uma aceitação inquestionável de que executam seu trabalho aplicando um tipo de processo mental pouco conhecido, possivelmente misterioso e certamente superior. Isso é conhecido como método científico”. E essa descrição é tão verdadeira que não há um único livro sobre Filosofia da Ciência que não dedique um ou mais capítulos para enfatizar a oposição do método científico ao chamado senso comum, ou conhecimento vulgar. Ernest Nagel (Ob. cit., p.   15-16)   enumera   diversos   problemas característicos  do senso comum, como a imprecisão,  a fragmentariedade,  a arbitrariedade,  o utilitarismo ou o acriticismo, que não raro encontramos também nas atividades científicas. Adotamos a opinião de Rubem Alves (Filosofia da Ciência, p. 14), que defende que a ciência “não é uma forma de conhecimento diferente do senso comum. (...) Apenas uma especialização de certos órgãos e um controle disciplinado do seu uso”. Sendo assim, diz ele (p. 20), “o senso comum e a ciência são expressões da mesma necessidade básica, a necessidade de compreender o mundo, a fim de viver melhor e sobreviver. E para aqueles que teriam a tendência de achar que o senso comum é inferior à ciência, eu só gostaria de lembrar que, por dezenas de milhares de anos, os homens sobreviveram sem coisa alguma que se assemelhasse à nossa ciência. A ciência, curiosamente, depois de cerca de 4 séculos, desde que ela surgiu com seus fundadores, está colocando sérias ameaças à nossa sobrevivência”. E, por, fim, merece destaque a lapidar crítica à matemática, por Ernesto Sábato (Ob. cit., p. 23): “A ciência exata (...) é alheia a tudo o que é mais valioso para o ser humano: suas emoções, seus sentimentos de arte ou justiça, sua angústia frente à morte. Se o mundo matematizável fosse o o único verdadeiro, não só seria ilusório um palácio sonhado, com suas damas, bobos da corte e palafreneiros; também o seriam as paisagens da vigília ou a beleza de uma fuga de Bach. Ou pelo menos seria ilusório o que neles nos emociona”.
 
A conclusão a que chegamos é a de que a ciência é um produto da cultura, como o são a arte, a religião, a linguagem. Distinguem-se a ciência e a filosofia por se estruturarem na razão, mas é inteiramente falsa a pretensão de ocuparem o espaço da verdade, pleitearem a primeira posição ou se pretenderem as únicas formas válidas de pensamento ou expressão humana. O fato de a ciência funcionar quando aplicada aos relógios e aos computadores significa pouco, porque ela fracassa com o ser humano, onde a arte e a religião têm sucesso. A argumentação de que a experimentação, a observação e a lógica constituem critérios de segurança na busca da verdade é apenas parcialmente aceitável, pois todo o edifício científico se alicerça sobre crenças e superstições. A ciência, enfim, é atividade humana e, portanto, como qualquer outra, está sujeita a todas as idiossincrasias próprias da nossa natureza.
 
É sobre esses parâmetros que julgamos se deva construir a epistemologia do Espiritismo científico, ou uma filosofia da ciência espírita.
 
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