terça-feira, 14 de agosto de 2012

AS CONDIÇÕES DA LIBERDADE



J. Herculano Pires in OS SONHOS DE LIBERDADE
1ª Edição - maio de 2005 - Editora Paidéia Ltda

Toda liberdade depende das condições que lhe permitem ser livre. A liberdade e suas condições formam um todo indivisível. Para o homem ser livre é necessário primeiro ser homem. Há homens que nunca foram nem serão livres, enquanto não forem homens. O homem também depende das condições que o fazem homem. O simples fato de nascer como um ser humano não lhe confere a qualificação de homem. Cada criatura, animal ou humana, nasce com a sua facticidade, ou seja: nasce feito quanto à forma e quanto à substância. É o ser biológico, reconhecido como desta ou daquela espécie pela sua forma. A substância invisível é uma incógnita, que só vai se revelar no seu desenvolvimento psíquico. Suas potencialidades inatas se desenvolverão no processo de relação, na família, na escola ou na sociedade. Como notou Tagore, a criança cresce como a árvore, por assimilação dos elementos do meio. Sua substância ou essência, que é o espírito, cresce na carne como a semente cresce no chão. Na proporção desse crescimento a essência revela o que é, o que traz na sua facticidade, como herança de si mesmo em vidas anteriores e herança genética da vida que vai viver. Assim, o homem começa como herdeiro, mas, na medida em que revela a herança própria, passa a assimilar a herança alheia. O instinto de imitação das crianças o faz treinar os órgãos corporais e desenvolver a mente. À facticidade endógena acrescenta os dados da facticidade exógena, assimilando a língua, os costumes, a cultura do meio. Envolve-se na mundanidade e integra em si mesmo os elementos desta. As linhas paralelas da assimilação biológica e da assimilação psíquica vão definir a sua condição atual. Ele não é produto do meio, pois já nasceu como era e acrescido da herança genética dos pais e da herança mesológica e sócio-cultural do tempo. Dessa maneira, seu condicionamento humano é complexo, revelando o seu poder de conquistar o mundo e dominá-lo ou a sua capacidade de infiltrar-se no mundo e sujeitar-se a ele. Até esse momento ele esteve preso à facticidade, sujeito às leis do desenvolvimento biopsíquico. Mas então surge o momento de opção, portanto da liberdade que nasce em suas mãos. Sem as condições da liberdade o homem não poderia ser livre. Sem as estruturas do seu próprio ser, do meio em que vive, da sociedade e da cultura a que pertence, como usar a liberdade de ser e fazer? É absurdo confundir-se o complexo de condições da liberdade com o determinismo, que faria do homem um simples robô. Espinosa, no anseio da precisão matemática de sua filosofia, transformou Deus e o mundo num duplo sistema de engrenagens rotativas e conjugadas que eliminou a liberdade. As leis naturais regem o mundo, mas Deus não é um mecânico preso à engrenagem da máquina que construiu. A simples precisão da máquina repele o panteísmo espinosiano, pois revela pensamento e vontade orientando o seu funcionamento com intenções diversificadas e finalidades inteligentes. O determinismo se define nas condições da liberdade e esta se afirma por si mesma nas opções e na capacidade criadora do homem. O vegetal se desenvolve e se move sob as leis do tropismo, atraído e impulsionado por forças exteriores. O animal está sob a lei do instinto, mas este deriva das suas necessidades orgânicas, que ele atende já numa fimbria de consciência prenunciadora de liberdade. O homem age na esteira das opções, querendo e fazendo na medida do saber que conquistou. Caso contrário não haveria responsabilidade nem possibilidade de justiça. A realidade não é uma estrutura mecânica e estática. Todos sabemos disso, pois o sentimos em nós mesmos, na nossa carne, nos nossos nervos, no nosso espírito. A ciência atual não comporta nenhuma suposição de tipo mecanicista. O cálculo de probabilidade matou as esperanças de uma realidade exata como um teorema algébrico. O que é a extrema flexibilidade do que chamamos real, que não raro se perde na irrealidade mais chocante? A imobilidade da pedra é uma ilusão dos nossos sentidos. Vamos chegando, empurrados pelos fatos, à concepção hilosoísta dos gregos. Não há matéria inerte, a vida palpita num grão de areia como num grão de trigo, numa gota d’água e no coração de um pássaro. Nessa flexibilidade atordoante, falar em estruturalismo rígido e determinista é tentar um retrocesso conceptual na Ciência.

Talvez o que ainda estimule algumas tentativas dessa natureza seja o trágico exemplo do retrocesso histórico no plano político. O panorama internacional nos mostra um processo geral de arrocho totalitário. Mas a situação política é muito diferente da científica. A política mundial só acompanhou a evolução científica do século no plano armamentista. Enraizada fortemente no passado, ao peso das estruturas burguesas, e na maioria das nações atuais arrastando as correntes de ferro do feudalismo e do colonialismo, ela não teve as possibilidades da ciência para se renovar. O problema da liberdade e do respeito aos direitos humanos é suficiente para nos mostrar o atraso doloroso e vergonhoso do panorama político. Na verdade, não se trata de um retrocesso histórico, mas da simples reincidência de males antigos, em forma aguda, num organismo em decadência. O que há nesse campo é precisamente a falta de condições para a liberdade. A política se assenta em fatores econômicos e financeiros, que determinam os seus rumos ideológicos. As mudanças ocorridas nesses fatores não foram de estrutura, mas de simples ampliação e dinamização de velhas estruturas ferozmente conservadas. Essas estruturas, portanto, não se enfraqueceram; pelo contrário, tornaram-se mais fortes e poderosas, maciçamente apoiadas pelo poderio militar. As próprias conquistas científicas fortaleceram as estruturas econômico-políticas em todo o mundo. Os seis anos da II Guerra Mundial, terrivelmente devastadora, seguida de guerras locais e revoluções violentas, contribuíram para a radicalização das posições. Por outro lado, as forças contrárias, nas duas áreas políticas do mundo, levadas pelo desespero, entregaram-se a um extremismo delirante, que por sua vez provocou a ação repressora. Nenhuma condição de liberdade restou no mundo, envolvido em tensões extremas, na permanente expectativa de uma tragédia global. A própria queda do colonialismo europeu na África e na Ásia, determinada por conseqüências da guerra nas economias e finanças das nações colonizadoras, ao invés de surgir como um fato auspicioso, transformou-se logo em novo motivo para inquietações e conflitos perigosíssimos, como chamas ateadas sobre barris de pólvora. Todas as formas de direito, especialmente a dos direitos humanos, foram aviltadas e desprezadas em nome da busca exasperante de meios de defesa dos direitos econômico-financeiros e, particularmente, das grandes potências atômicas. Como preservar a liberdade política na trama de espionagens, sabotagens, pactos internacionais, guerrilhas, seqüestros, agressões à soberania de pequenas nações convertidas em campo experimental de armas químicas e bombardeios arrasadores?

Não há dúvida que estamos num período de transição violenta, em que os valores humanos deixaram praticamente de existir. Vale mais um avião de bombardeio, um satélite de espionagem, um segredo de Estado do que o direito de um homem defender a sua ideologia ou o direito de uma população de milhões de indivíduos viver e trabalhar em paz em oposição a interesses internacionais considerados de importância fundamental para a segurança de uma potência. O velho adágio: Vão-se os anéis e fiquem os dedos, foi invertido para uma fórmula mais pragmática: Vão-se os dedos, mas fiquem os anéis.

Os ciclos históricos são intercalados por períodos de transição catastróficos, que geralmente começam pela subversão dos valores dominantes na fase da civilização que se finda. A tônica dessas subversões é a luta pela liberdade. Todas as transformações sociais e mudanças culturais nas- cem do anseio de libertação. Isso se explica pelo processo de sedimentação cultural, que logo após a derrocada do sistema perempto se instala com rigorosas medidas de precaução e defesa. Sempre se espera que uma vez estabelecida a nova ordem o princípio de liberdade triunfará, mas acontece ao contrário. As medidas de segurança geram sistemas coercitivos que se implantam e criam raízes. Interesses múltiplos se conjugam na formação de grupos interligados para a sustentação dos princípios considerados como intocáveis. São os dogmas da revolução, colocados acima dos valores humanos pelos fanáticos e os aproveitadores da situação. Os ideólogos sinceros, que deram sangue e suor na luta pela mudança, acabam sacrificados ou, embora desiludidos, acomodam-se na nova rotina que se forma e se desenvolve. Isso, entretanto, não limita o anseio de liberdade; mostra apenas que a fragilidade humana é mais forte do que parece, pois a própria essência do homem pode ser aviltada por ela. Frágil, como indivíduo, ante a mola gigantesca da nova estrutura criada, o homem se justifica na sua capitulação para não perder o apoio dos companheiros falidos mas bem colocados em posições de mando. Pouco a pouco o sonho de liberdade se apaga, pois se torna perigoso para a nova estrutura, como foi para a antiga. Mas justamente por isso a nova ordem se firma, condenando-se à futura destruição, porque o anseio de liberdade renasce em cada nova geração.

Temos assim uma visão trágica do destino humano na Terra. O círculo vicioso das mudanças parece indicar que elas são improfícuas, nada mais do que sonhos sem consistência real. A História nos mostra, entretanto, que na sucessão dos ciclos há sempre um saldo favorável para o futuro. Dos gregos aos romanos, destes ao Feudalismo, à Renascença e ao mundo moderno houve um saldo favorável para liberdade que permitiu o estabelecimento do mundo contemporâneo como o mais livre, nos seus primeiros séculos, do que todas as civilizações anteriores. E esse aumento de liberdade permitiu o desenvolvimento espantoso da ciência, da técnica e da cultura, bem como a democratização cultural em escala jamais atingida anteriormente. Mas a civilização científica e tecnológica teve de enfrentar problemas que não poderia superar. As condições novas de vida permitiram a chamada explosão demográfica em espiral violentamente ascendente, a técnica levou à produção em massa de máquinas e aparelhos, à devastação das matas e à poluição do mundo: terra, ar, rios, mares, tudo foi poluído em todas as regiões do planeta. O fundo dos oceanos e as próprias regiões polares não ficaram imunes. As religiões entraram em descrédito e agonia e o materialismo convenceu os homens da vacuidade e falta de sentido da vida. A falsa cultura propagou-se até mesmo nas nações mais tradicionalmente cultas e o charlatanismo profissional tornou-se a mais séria ameaça à saúde pública. O delírio dos tóxicos e do sexo ameaça liquidar os últimos redutos da moral tradicional.

Não convém continuar nessa relação desastrosa. Todos sabemos em que espécie de mundo estamos vivendo. O que nos importa é mostrar, pela sintomática evidente, que o mundo contemporâneo naufraga num mar poluído. Não obstante, este mundo trágico ficará na história como marco inicial da Era Cósmica da Terra. Mesmo porque, ao lado de todos esses transtornos, é nele que se verifica a maior conquista humana de todos os tempos: a prova científica da sobrevivência do homem após a morte, da descoberta do corpo bioplásmico do homem na Universidade de Kirov, na URSS, a comprovação parapsicológica dos poderes de percepção extra-sensorial do homem, na Universidade de Duke (EUA), a possibilidade de comunicação dos espíritos com os homens e o imenso poder do pensamento humano, que se firmou nas experiências de Mitchel, na Apolo 14, sobre telepatia cósmica, como a única energia capaz de enfrentar as distâncias do espaço sideral para o estabelecimento de ligações dos astronautas com a Terra. Pela primeira vez essas comprovações universitárias foram aceitas como válidas no meio científico oficial, o que poderá valer para o nosso século angustiado e glorioso o título do Século da Imortalidade. Opsychic-boom do século XX o resgata dos crimes enormes nele cometidos por uma Humanidade tresloucada, restabelecendo a confiança espiritual da espécie em si mesma e abrindo perspectivas para uma compreensão mais exata e profunda da natureza humana. Os sonhos de liberdade, até hoje duramente frustrados, poderão concretizar-se na era cósmica que se inicia, se a loucura atual não chegar ao extremo de desencadear a guerra dos botões. A certeza científica do prosseguimento da vida, substituindo a suposição dogmática das Igrejas, que só podem sustentar essa realidade em nome da fé, poderá contribuir para que os homens evitem o terrível genocídio. Que ao menos a liberdade de viver seja permitida às gerações que estão agora mesmo florescendo na Terra poluída e ameaçada.

Dois outros fatos significativos estão ocorrendo e deverão pesar na balança das responsabilidades políticas: o desenvolvimento intensivo das pesquisas sobre a reencarnação que, obtendo sucesso nos Estados Unidos e na Europa, repercutiram na URSS e nos países da órbita soviética. A elas se entregou, na Universidade de Moscou, o Prof. Wladimir Raikov, protegido pela hipótese estratégica dereencarnações sugestivas, e a descoberta da antimatéria pelos físicos ingleses, americanos e soviéticos.

A descoberta do corpo bioplásmico, por físicos, biólogos e biofísicos soviéticos, confirmou a tradição cristã do corpo espiritual e a descoberta da antimatéria comprovou a existência de outro mundo interpenetrado com o nosso mundo material. O Governo Soviético e sua Academia de Ciências perceberam o perigo ideológico dessas conquistas ao Leviatã materialista e preferiram suspender as pesquisas (pelo menos oficialmente), mas a divulgação feita na Europa e na América por duas pesquisadoras da Universidade de Prentice Hall (EUA) teve e continua a ter ampla repercussão nos meios científicos.

A importância desses fatos não permitirá a ocultação que se pretende fazer. Eles mudam, profundamente a nossa visão do mundo e da vida. Nos Estados Unidos há grande interesse pelo restabelecimento dessas pesquisas. É possível que os interesses da política internacional permitam abafamento transitório do prosseguimento das pesquisas, mas os resultados já obtidos e divulgados são suficientemente impressionantes para que o silêncio a respeito não continue por muito tempo. A liberdade de divulgação, barrada pelos interesses soviéticos, poderá furar a cortina de silêncio pelo próprio interesse dos países e dos cientistas de tendências espiritualistas.

Esse exemplo recente dos interesses que podem impedir, na era da comunicação, a liberdade de divulgação no próprio campo científico, mostra-nos como é difícil a luta pela liberdade humana.

Às condições naturais, necessárias ao exercício da liberdade, temos de acrescentar as condições artificiais, criadas pelo próprio homem. Foi longa a luta que os sábios medievais tiveram de manter contra as pressões e condenações da Igreja, para darem curso às pesquisas científicas que desmentiam dogmas religiosos. Submetendo a Filosofia à condição de serva da Teologia, a Igreja pretendeu também transformar a Ciência noutra serva. A função de ambas, Filosofia e Ciência, ficariam limitadas ao fornecimento de dados que pudessem manter e prestigiar os absurdos teológicos. Agora que os teólogos foram derrotados em sua pretensão, os ideólogos políticos os substituem na luta contra a liberdade. Vencido o Vaticano, surge em campo o Kremlin, na mesma posição da Igreja, em defesa dos dogmas de sua ideologia política – dois exemplos flagrantes, e um deles recente, do que chamamos condições artificiais do exercício de liberdade. O homem se volta contra a sua própria essência, que é a liberdade de pensamento e de ação na busca da verdade, simplesmente para defender as instituições carregadas de pesados erros, que criaram em nome da liberdade. Sartre, que proclamou em sua filosofia: O homem é a única brecha de liberdade do mundo, pode agora se corrigir, lembrando que a brecha é a Ciência, que o homem procura fechar com cimento e ferro, para continuar escravo de suas idéias e interesses passageiros. Vale lembrar aqui a expressão de Olênine, personagem de Tolstoi em Os Cossacos, ao contemplar no Cáucaso a correnteza do Terek e a vida dos cossacos da Crista: Que mundo, que homens!Os cossacos se consideravam livres, vigiando as margens do Terek, que os dividiam dos guerreiros Nogai, de uma tribo asiática que fazia incursões de pilhagem em terras cossacas. Mas do outro lado os Nogai tinham de fazer o mesmo, para impedir as incursões de pilhagens cossacas.

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