sexta-feira, 24 de agosto de 2012

REFLEXÕES SOBRE A FÉ


 
Como tudo mais no Universo, a fé é sujeita à Lei da Evolução. No entanto, sua evolução, mais que a de outras características do espírito humano, apresenta duas componentes que se devem somar. Em sua capacidade de remover montanhas, a fé pura e inocente de um aborígine australiano pode ser mais forte que a fé racionalizada de um erudito estudioso Espírita. Dizer que a deste último é superior à do primeiro apenas por ser fruto do entendimento é simplificar demais uma questão complexa e, possivelmente, afirmar uma inverdade. Existem diversas estórias nas tradições religiosas das diversas religiões, até mesmo parábolas do Senhor Jesus, para nos esclarecer sobre esta realidade. 

Uma que gostamos muito diz respeito a uns sacerdotes que tinham ouvido falar que, em uma determinada ilha, havia um homem que queria aprender a orar. Tocados pela necessidade do pobre homem, os sacerdotes demandaram à tal ilha e, em lá encontrando o homem, este lhes disse que era muito ignorante e que tudo o que sabia dizer como oração era ficar repetindo “Deus, Deus, Deus” monotonamente. 

Os sacerdotes, habituados às longas orações proferidas do púlpito para os fiéis, tentaram ensiná-las ao homem. Após certo tempo ensinando as orações, tomaram novamente o barco para retornarem ao continente, acreditando terem cumprido sua missão. Quando já tinham-se afastado bastante da ilha, no entanto, eis que vêem o homem correndo, aflito, sobre as águas, suplicando-lhes que voltassem, pois tinha esquecido as orações que os sacerdotes lhe haviam ensinado.

Mesmo entendendo o relato acima como uma alegoria e não um fato real, ele é correto quando mostra que a fé simples, pura e inocente, é de um poder imenso, pois de nada duvida, permitindo ao Espírito encarnado o exercício de potencialidades que um outro, dotado de grande conhecimento, nem pensaria em exercer por ignorar seu funcionamento. No relato evangélico vemos que Pedro, ao tentar seguir o Mestre, que caminhava sobre as águas, começou conseguindo e, depois, afundou. Quando isso ocorreu, o Mestre repreendeu-o por sua pouca fé. Sim, ao raciocinar sobre o que Jesus tinha feito, ele não encontrou explicação e, com isso, perdeu a sustentação que a fé simples lhe havia dado para os primeiros passos.

Os relatos evangélicos nos trazem, ainda, dois exemplos magníficos do poder da fé. A cura da mulher que tinha uma hemorragia havia doze anos pelo simples contato com o manto de Jesus (Lc 8:43-48) demonstra a força da fé simples e não raciocinada. Para ela o Mestre disse: “A tua fé te salvou.” Como exemplo da fé raciocinada e de sua força, lemos sobre a cura do servo do Centurião (Lc 8:3-10), que, compreendendo a condição de Jesus como um líder de falanges espirituais assim como era ele líder de falanges encarnadas, disse saber que o Mestre não precisava ir à casa dele para curar seu servo, fazendo com que Jesus, após ter confirmado o entendimento dele, promovendo à distância a cura solicitada, afirmasse: “... nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé”.

Não devemos prescindir da fé simples como se ela fosse um resquício de atraso em nosso caminho evolutivo que para nada servisse. Não, diante de algo que não compreendemos plenamente, mas que nossa intuição nos afirma ser possível e é voltado para o bem, saibamos seguir em frente e agir com determinação e fé, certos de que os bons Espíritos estarão conosco na empreitada.

Foi com essa fé, ao mesmo tempo simples e raciocinada, que Espíritos, praticamente saídos do anonimato da sociedade, fizeram obras magníficas registrando-se para sempre na história humana como ícones de ação colocada a serviço do bem. Se Madre Teresa, Ghandi, Irmã Dulce, algum deles tivesse submetido cada ação do bem que fizeram a um raciocínio prévio quanto à sua factibilidade, pouco ou nada teriam feito. 

Concluindo, oferecemos um tema para reflexão: Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XIX, 2, Kardec analisa a expressão com que Jesus se referiu à força da fé, dizendo-a capaz de mover montanhas, como tendo significado alegórico. Diz o Codificador que Jesus se referia às montanhas de incompreensão, de ignorância, de dificuldades as mais diversas. Mas, será que o Mestre estava mesmo usando alegorias? Afinal, não foi Jesus o Espírito responsável pela criação de nosso planeta inteiro, tendo movimentado com a força de sua vontade as forças da natureza? Então por que tomar como certo que Jesus estava sendo alegórico quando falou que a fé seria capaz de mover montanhas? 
Bem sabemos que ainda somos Espíritos ignorantes esforçando-nos para melhorar e que milhares, talvez milhões, de vidas nos separam da perfeição dos Espíritos puros. Ao falar da fé que remove montanhas não poderia Jesus estar falando de um estágio evolutivo da fé que aqui na Terra ainda não nos é possível conceber?
 
Artigo publicado originalmente em O Espírita Fluminense, Julho / Agosto de 2006
 
 
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