terça-feira, 23 de outubro de 2012

KARDEC E O ESPIRITISMO



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    O Espiritismo é, ao mesmo tempo, Ciência Experimental e doutrina filosófica. Como Ciência prática, tem a sua essência nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos. Como Filosofia, compreende todas as consequências morais decorrentes dessas relações. Pode ser definido assim: O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal. (A. Kardec – O Que é o Esp. – Preâmbulo)
  Na 5ª edição francesa de “O Livro dos Médiuns”, cap. III, item 35 o seu autor é categórico em incluir o texto em que garante que aquele que quiser conhecer a doutrina espírita deverá seguir a seguinte ordem de estudo de suas obras: 1. O que é o Espiritismo; 2. O Livro dos Espíritos; 3. O Livro dos Médiuns; 4. Seleta, por ele elaborada, depois que escreveu o livro a Gênese, contendo matéria publicada na Revue Spirite, com destaque para um estudo sobre a desobsessão, onde apresenta um quarto caso não incluído no LM ao qual chamou de “obsessão física”, onde o Espírito perturbador só quer chamar a atenção do seu pretenso médium para seus predicados. Conta, até, o caso do Espírito corneteiro.
  É Kardec e ninguém pode contestar. Não inclui o estudo do Evangelho como fundamento doutrinário, portanto, a atual tendência dos seguidores de ensinos mediúnicos oriundos de Entidades espirituais ligadas à Igreja não tem amparo nos conceitos de Kardec. Atribui-se o fato à massificação da Igreja sobre nossa sociedade há dois milênios, criando a ideia de que Jesus seja nosso salvador.
  E tem mais: em nenhum momento Kardec define Jesus como Guia do nosso planeta; pelo contrário, em o LE, o que o Espírito instrutor afirma é que, se quisermos um exemplo humano a ser seguido, devemos ver Jesus (Voyez Jesus); de fato, o Guia do Planeta jamais poderia se encarnar nele, já que, se o fizesse, durante esse tempo não teria condições de exercer seus poderes supremos porque estaria bitolado aos liames do corpo somático.
  Sem dúvida, há um interesse enorme de muitos em transformar o Espiritismo em mais uma seita evangélica, descaracterizando-o como doutrina puramente filosófica (segundo a definição acima) e tirando-lhe justamente a finalidade precípua que é a de levar os ensinamentos de Jesus àqueles que não aceitem o evangelismo. Pois justamente, o grande valor do Espiritismo é poder levar tais conhecimentos aos cientistas sem os dogmas e preconceitos religiosos do cristianismo.
  Muitos usam o argumento de que há uma obra da codificação intitulada “O Evangelho Conforme (selon, em francês) o Espiritismo” que seria a declaração óbvia de que a doutrina seria evangélica, todavia, este livro, longe de ser uma apologia, é um ensaio e crítica dos textos bíblicos e seu próprio autor chega a declarar no cap. XIV, item 6, que muitas palavras contidas nesta obra ou foram mal reproduzidas, mal interpretadas ou até mesmo, sequer sejam de Jesus, o que demonstra que ele via com reservas os referidos textos, chegando a ponto de contestar vários deles, inclusive na Gênese.
  Torna-se direito pleno de cada um seguir a doutrina que melhor lhe apraza, todavia, não pode adulterar os conceitos espíritas de Kardec, como o fez Guillon Ribeiro ao traduzir suas obras para a FEB, mutilando-a a seu bel prazer a fim de que fosse coerente com a doutrina de Roustaing adotada naquela Casa. Nem tão pouco se pode corrigir a codificação por novos conceitos mediúnicos, independente da sua procedência porque Espiritismo é a doutrina codificada pelo mestre lionês, certa ou errada.
  Portanto, é servindo-se do livro básico, considerado pelo próprio Kardec que podemos tirar conclusões que veremos adiante, segundo suas declarações a um Sacerdote, no terceiro entretenimento, respondendo à seguinte consideração: – Vous ne disconviendrez pas cepandant que le spiritisme n’est sur tout les point d’accord avec la religion. (Não desconvireis, entretanto que o Espiritismo não esteja sob todos os pontos de acordo com a religião).
  E Kardec, pegando a deixa, explica que, de fato, o Espiritismo não é uma religião, pois não possui sacerdotes, nem cultos, muito menos dogmas, contudo, admite a existência de um Deus, ora ou faz preces em seu louvor, pratica uma série de atos religiosos que caracterizam essa parte no seu contexto.
  Já os velhos escritores latinos como Cícero, Plauto, Virgílio e outros, diferenciando os conceitos, garantem que sciens, entia (a ciência) é o estudo do conhecimento humano enquanto que religio, onis (a religião) é o estudo das obras, o culto, o conhecimento e a adoração aos deuses, afinal eles eram politeístas, portanto, a religião em si, para os monoteístas é o estudo correlato com a existência de Deus e, como tal, sem dúvida, está contido no cap. I do LE e no cap. III da Gênese essa parte religiosa do Espiritismo, onde Kardec apresenta seu fundamento sobre o conceito da existência de um Criador Supremo do Universo, caracterizando-o na forma da doutrina espírita, e que, mais uma vez, nada tem que ver com os evangelhos.
  Este tópico é de suma importância porque, no meio espírita, prolifera a ideia, entre alguns, de que “religião” seja religar o homem com Deus, sem dúvida, um erro crasso, já que, em sua formação etimológica, religar vem do latim “religare” e nem Kardec faz qualquer referência, em toda sua obra a tal absurdo. O verbo latino, em nenhum de seus tempos, apresenta o “i” depois do “g” como consta do termo “religião”. E nem em francês caberia tal conceito, porque o verbo ligar no idioma galês é attacher ou joindre o que não daria nunca, qualquer correlação do termo “religião” com “religação”. Nem mesmo o verbo lier (unir, associar-se) poderia levar um autor francês a tal conceito.
  Portanto, o que inventou a ideia de que o conceito seria de Kardec, nem conhece o idioma em que ele escreveu suas obras. Mas, infelizmente, esse tal conceito anda inteiramente disseminado em nosso meio.
  Sem dúvida, hoje em dia, como diria o Dr. Jorge Andréia, há “Espiritismo” para tudo o que é gosto, até mesmo para espíritas. Porque, de fato, a diversificação é enorme; a maioria dos militantes de movimentos espíritas nem conhece Kardec, segundo pesquisa feita por Lucia Faria, viúva do nosso querido Carlos Bernardo Loureiro e praticam Espiritismo a partir de obras mediúnicas ditadas pelo médium de sua preferência. E ainda teima que Kardec estaria errado porque em tal ou qual obra o guia espiritual que a escreveu diz diferente. Temos nos deparado com uma enorme gama dessas observações e não seria de se estranhar se, em determinado momento, venham dizer que o único errado dentro da doutrina espírita seja seu codificador.

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