terça-feira, 16 de outubro de 2012

MINHA CASA, SUA CASA, NOSSA CASA


MINHA CASA, SUA CASA, NOSSA CASA
Walter Nascimento Neto
 
Quase um século após a publicação de O Livro dos Espíritos, por Allan Kardec, a Humanidade começou a ouvir, e a incluir no rol dos assuntos em voga no dia-a-dia, uma nova definição do papel do homem no concerto das coisas, especialmente da Natureza e dos recursos naturais.
 
Até os últimos anos do século XIX o homem se havia acostumado a ver na Natureza uma fonte de recursos inesgotáveis e eternamente disponíveis ao progresso, independentemente da maneira como era usada. A visão antropocêntrica do Universo, a interpretação do homem como criatura privilegiada na Natureza, literalmente feito à imagem e semelhança de Deus, e a crença científica no homem como etapa final da Criação, fruto dos trabalhos de Jean-Baptist Lamarck, colaboraram de forma decisiva para que o ser humano deixasse a cargo das potências ocultas, responsáveis pelos "milagres!", a preocupação com a  manutenção das fontes naturais do progresso material humano. Num paradoxo típico do homem, o ser racional não racionaliza o uso que fazia da Natureza, crendo-a infinita.
 
Fruto destas condições histórico-sociais, o ser humano investiu toda a sua energia na dominação irracional na Natureza. Ainda sob a influência da Revolução Industrial do século XVIII, o século XIX e grande parte do século XX assistiram à destruição de florestas para a construção de cidades e para a obtenção de matéria-prima(carvão mineral) com o fim de fornecer energia para o funcionamento de gigantescas fábricas em todo o mundo, especialmente na Europa e posteriormente na América do Norte. Fazem parte destas realizações o aparecimento da maravilha do plástico, da borracha industrializada, do vinil, do aerosol, da disseminação dos aparelhos elétricos, especialmente na forma de eletrodomésticos, e de ambientalizadores artificiais como o ar-condicionado. Tudo isso foi progresso, mas de que tipo e a que preço?
 
Há bem pouco mais de algumas décadas o homem começa a dar-se conta desse preço. A mudança de visão de mundo começa já no século XIX com o questionamento filosófico e científico sistemático do conteúdo religioso. A apresentação da primeira versão do moderno evolucionismo, por Charles Darwin, desloca o homem da condição de espécie privilegiada para a de apenas mais uma espécie dentre tantas outras. Tendo, a grosso modo, o mesmo significado natural que qualquer outro organismo vivo, diferindo apenas quanto à sua capacidade de adaptação, dada pelo uso do raciocínio de forma única no mundo natural.
 
Neste mesmo contexto surge, na "França das Luzes" desse mesmo século XIX, a primeira obra de um movimento novo de renovação moral da Humanidade. Possuindo um caráter de filosofia, de ciência experimental e de religião, o Espiritismo se coloca como doutrina eminentemente racional e estende mãos a esses movimentos de reorganização das bases do pensamento ocidental. Neste sentido, o Espiritismo se opõe à crença da isenção de responsabilidades das atitudes humanas, esclarecendo a questão do livre-arbítrio e afirmando que, se ao homem é dado o direito de escolher, é-lhe cobrado, por decorrência da premissa de um Deus justo que a tudo provê com sabedoria e bondade, o dever de se responsabilizar por seus atos no bem ou no mal, eliminando assim o equívoco de que a conseqüência do abuso dos recursos naturais poderia não afetar o próprio homem.
 
Partindo da compreensão de Deus como inteligência suprema, causa primária de todas as coisas, e tendo o atributo de imutabilidade e unicidade o Espiritismo esclarece que a justiça Divina está baseada em Leis Naturais imutáveis escritas na consciência, e que entre essas Leis existe uma Lei de Conservação e uma Lei de Destruição.
 
A respeito da Lei de Conservação os Espíritos que responderam a Kardec em O Livro dos Espíritos afirmam que o instinto de conservação, presente em todos os seres vivos, existe com o fim providencial de fazê-los permanecer em aperfeiçoamento constante, que a Terra sempre produzirá para o homem o necessário e que, se isso não acontece, é por imprevidência ou por abuso do próprio homem; que o uso dos bens da Terra é um direito de todos os homens, que decorre da necessidade de se ter meio para viver; que a Natureza tem limites, e que o homem é a causa de sua própria dor quando avança ou excede esses limites.
 
Quanto à Lei de Destruição, os Espíritos esclarecem que a destruição antes do tempo necessário entrava o desenvolvimento do princípio inteligente; que a destruição é o contrapeso da conservação com fim de manter a harmonia na Natureza.  Além disso, esclarecem que ao homem só é dado o direito de destruir os outros seres vivos (nesta questão eles se referem apenas aos animais) com o fim de prover à sua alimentação e segurança.
 
Finalmente, quanto ao progresso, os Espíritos da Condificação referendam o seu caráter de Lei Natural e o dividem em progresso intelectual e progresso moral, acrescentando que o primeiro pode sofrer o obstáculo do orgulho e do egoísmo, enquanto o segundo parece avançar sempre.
 
Filho do progresso intelectual, o progresso material é fruto do uso pelo homem de suas capacidades intelectuais para adquirir maior conforto, rapidez e segurança e, como o progresso intelectual de onde se origina, parece avançar sempre.
 
A percepção das Leis Naturais acima expostas, ou seja, de que o direito do homem sobre as demais formas de vida da terra se estende apenas até o limite do necessário, e de que ultrapassando este limite ele está plantando sementes de dores futuras, juntamente com uma tomada de decisão sincera no sentido de evitar estas dores, são sinais de progresso moral, geralmente advindo de um progresso intelectual anterior.
 
Se recordarmos que o Espiritismo deve contribuir para o progresso moral da Humanidade destruindo o materialismo, conclui-se, seguramente, que ele deve ter grande influência também na realização desse progresso moral. Não só no que se relacione com os movimentos de valorização e conservação dos recursos naturais mas também na própria reformulação dos objetivos do homem, tendo em vista o seu progresso espiritual. Assim aos espíritas, que devem ser os móveis de propagação desse ideal de progresso, não pela força ou pela atitude verborrágica, mas pelo exemplo vivo, cabe uma reflexão quanto ao seu papel na racionalização do uso dos recursos naturais, visando a garantir a sua própria existência material numa reencarnação posterior e, principalmente, de realizar progresso moral efetivo.
 
Em tempos de crise energética, cujas causas estão estreitamente ligadas a muito do que está acima exposto, parece caber aos espíritas contribuírem de bom grado para a racionalização, e, especialmente, as mudanças dos hábitos antigos, e muitas vezes arraigados, como o de gastar sem se preocupar com a reposição ou reciclagem. Mais importante ainda é a conscientização dos Espíritos, que há de levar a bandeira da causa espírita mais à frente no plano material da existência. Refiro-me aos jovens  espíritas.
 
É fundamental que o Centro Espírita, principalmente junto aos setores de evangelização de crianças e jovens, não deixe de tocar nestes assuntos em seus planejamentos pedagógicos semestrais ou anuais (o Currículo para Escolas de Evangelização Espírita Infanto-juvenil editado pela FEB já incluiu estes temas). As crianças e os jovens são, comprovada e especialmente, susceptíveis a este tipo de educação. Portanto, pode-se aproveitar as circunstâncias da idade a fim de edificar novos comportamentos para o futuro, e garantir parte da realização da tarefa de cuidar dos bens da Terra. Apenas parte, porque é preciso lembrar sempre da importância de ensinar o que já aprendemos a fazer e exemplificar. A outra parte desta realização pertence também  aos que se dedicam à tarefa de ensinar.
 
Quase um século e meio após a publicação de O Livro dos Espíritos é recomendável formar um novo contexto do papel do Espírito imortal na conservação do palco atual do seu próprio progresso (o planeta Terra). Essa formação passa, primeiramente, pela vontade de modificar comportamentos arraigados e, depois, pela educação que, segundo Allan Kardec "(...) se bem entendida, é a chave do progresso moral".
 
(O Reformador - julho de 2002)
 
 
 
 
 
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