terça-feira, 16 de outubro de 2012

Seara de Ódio



- Não! não te quero em meus braços! - dizia a jovem mãe, a quem a Lei do Senhor conferira a doce missão da maternidade, para o filho que lhe desabrochava do seio - não me furtarás a beleza! Significas trabalho, renunciação, sofrimento.. . 

- Mãe, deixa-me viver!... - suplicava-lhe a criancinha no santuário da consciência - estamos juntos! Dá-me a bênção do corpo! Devo lutar e regenerar-me. Sorverei contigo a taça de suor e lágrimas, procurando redimir-me.. . Completar-nos- emos. Dá-me arrimo, dar-te-ei alegria. Serei o rebento de teu amor, tanto quanto serás para mim a árvore de luz, em cujos ramos tecerei o meu ninho de paz e de esperança ... 

- Não, não...

- Não me abandones!

- Expulsar-te- ei.

- Piedade, mãe! Não vês que procedemos de longe, alma com alma, coração a coração? 

- Que importa o passado? Vejo em ti tão-somente o intruso, cuja presença não pedi. 

- Esqueces-te, mãe, de que Deus nos reúne? Não me cerres a porta!...

- Sou mulher e sou livre. Sufocar-te-ei antes do berço... 

- Compadece-te de mim!... 

- Não posso. Sou mocidade e prazer, és perturbação e obstáculo. 

- Ajuda-me! 

- Auxiliar-te seria cortar em minha própria carne. Disputo a minha felicidade e a minha leveza feminil... 

-Mãe, ampara-me! Procuro o serviço de minha restauração...

Dia a dia, renovava-se o diálogo sem palavras, até que, quando a criança tentava vir à luz, disse-lhe a mãezinha cega e infortunada, constrangendo- a a beber o fel da frustração: 

- Toma à sombra de onde vens! Morre! Morre! 

- Mãe, mãe! Não me mates! Protege-me! Deixa-me viver... 

- Nunca! 

- Socorre-me! 

- Não posso. 

Duramente repelido, caiu o pobre filho nas trevas da revolta e, no anseio desesperado de preservar o corpo tenro, agarrou-se ao coração dela, que destrambelhou, à maneira de um relógio desconsertado. ..

Ambos, então, ao invés de continuarem na graça da vida, precipitaram- se no despenhadeiro da morte. 

Desprovidos do invólucro carnal, proojetaram- se no Espaço, gritando acusações recíprocas.

Achavam-se, porém, imanados um ao outro, pelas cadeias magnéticas de pesados compromissos, arrastando-se por muito tempo, detestando-se e recriminando- se mutuamente.. .

A sementeira de crueldade atraíra a seara de ódio. E a seara de ódio lhes impunha nefasto desequilíbrio. 

Anos e anos desdobraram- se, sombrios e inquietantes, para os dois, até que, um dia, caridoso Espírito de mulher recordou-se deles em preces de carinho e piedade, como a ofertar-lhes o próprio seio. Ambos responderam, famintos de consolo e renovação, aceitando o generoso abrigo ... 

Envolvidos pela carícia maternal, repousaram enfim. 

Brando sono pacificou-lhes a mente dolorida. 

Todavia, quando despertaram de novo na Terra, traziam o estigma do clamoroso débito em que se haviam reunido, reaparecendo, entre os homens, como duas almas apaixonadas pela carne, disputando o mesmo vaso físico, no triste fenômeno de um corpo único, sustentando duas cabeças.

XAVIER, Francisco Cândido. Contos e Apólogos. Pelo Espírito Irmão X. FEB. 

* * * Estude Kardec * * *

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