terça-feira, 2 de outubro de 2012

VELHOS E VELHICE



Anderson Santos Andrade Silva
 
Quando alguém avalia uma pessoa por sua condição de exaustão física, atributo próprio da velhice está, na realidade, avaliando um espírito, e, nem todos se dão conta disso. Um espírito traz seu acervo de vivências desta e de outras existências, e, por isso, o avaliador, nem sempre foca o conteúdo, mas apenas as precárias manifestações das forças físicas, como se estas estivessem a atravancar a pressa das enfermidades do mundo e como se o mundo fosse regido pela plenitude física de seus habitantes.
 
É o estado social da humanidade, como decorrência do progresso intelectual e moral até então realizado, que espelha a condição do mundo, e a plenitude física pouco contribui para essa condição.
 
O estado social atual da humanidade mostra, embora as valiosas conquistas humanas ao longo da História, o quanto ainda a sociedade humana tem que caminhar rumo ao seu grandioso destino. Não são as forças físicas e sim as do coração e da sabedoria que levarão a esse destino.
 
Nos primeiros estágios do desenvolvimento da humanidade as forças físicas prevaleciam. O homem era ditado mais pelos instintos do que pelo sentimento e a razão. A conquista e a luta pela sobrevivência imediata eram necessárias. Nessas condições, o planeta, ainda bruto, não podia prescindir das forças da natureza através das convulsões geológicas e também da ação do próprio homem e dos animais de então, para tornar-se saneável e promover a habitabilidade. Pouco se sabe sobre a velhice daqueles tempos. Provavelmente éramos velhos novos, o que significa que nem chegávamos a envelhecer diante de tantas adversidades no enfrentamento de uma natureza inóspita. O vigor físico e o agrupamento eram condições de sobrevivência. A experiência humana ensaiava os primeiros passos. Éramos apenas artífices do futuro a entalhar com sangue e suor a sociedade que hoje conhecemos. Hoje as necessidades são diferentes e a própria configuração do homem é outra. Analisar o velho pela sua condição física demonstra uma visão espiritual apequenada. É deixar de entrever a beleza da história da realização do ser, que se projeta por trás do olhar vivaz do rosto lívido e enrugado. Precisamos de um novo agrupamento. O da fraternidade, onde todos tenham oportunidades de ser úteis. A sociedade moderna já não necessita da subjugação pela força e os tempos da barbárie já são idos. Precisamos valorizar a todos. Nossos velhos, assim como nossas crianças e jovens, são nossos melhores valores. Há pontos de contato entre eles, embora nem sempre haja contato, mormente quando a indiferença faz morada nos corações.
 
Criou-se-lhes até uma categoria: a da terceira idade. Categorização louvável, para o tempo da Terra. Porém, sua idade espiritual é insondável e não categorizável, pois que, a vida do espírito é uma só, no conceito da imortalidade da alma e das vidas sucessivas na jornada terrena.
 
Muito do que temos e sabemos, nesta vida, devemos a eles. Eles voltarão – almas antigas em planos novos, em nova existência para novas vivências na Terra, como é da Lei, exatamente como aqueles que hoje os desprezam voltaram e aqui estão e, quiçá, serão velhos também, um dia.
 
O velho é o oposto da criança; muitos deles, com suas belas criancices.
 
Uns chegando ao mundo – as crianças, embalados pelos sonhos da infância, com seus potenciais de experiências a realizar.
 
Outros – os velhos, ocupados intimamente com a partida, vivendo com intensidade o tempo que lhes resta, levando na bagagem suas realizações de virtudes; valores imperecíveis, porque são tesouros dos céus, onde a traça não corrói. E, no âmago do ser, elevando sua gratidão por tudo aquilo que viveram e por todos com quem conviveram. Trazem no brilho do olhar as expectativas do encetamento de novas práticas da vida nas trajetórias terrenas futuras, e o regozijo do anseio por antigos reencontros afetivos no retorno aos braços dos que não vieram a acompanhá-los nesta jornada ou dos que partiram antes. É que já descobriram o valor da velhice e a amplitude da vida do Espírito; imortal vida.
 
Em sua sabedoria, se antecipam à saudade que advirá dos que prosseguem na marcha terrena, amando na velhice seus entes queridos e amigos como nunca dantes.  Levarão o amor na lembrança.
 
Mais belo ainda esse amor, se correspondido.
 
Como isolá-los, então? Não é melhor amá-los, no entrelaçamento desse grandioso amor?
 
Oh! Deus, como nosso coração é mesquinho. Ensina-nos a amá-los!
 
Indiferentes à indiferença do mundo, sabem que Deus, em sua infinita sabedoria, deu netos para alegrá-los e isso lhes ascende à Vida. As lutas agora são outras. São as lutas do encantamento; do não deixar passar os momentos felizes, singulares da velhice; momentos únicos. Por isso, precisam ser bem vividos.
 
As crianças, simbolizando a pureza da alma, não têm a pressa e a sagacidade da pressa que a vida impõe impiedosamente ao homem do mundo e, por isso, curtem os seus velhos e ouvem encantadas seus contos, renovando com seus encantos, os avós desprezados da vida.
 
Os velhos, para serem velhos, devem aprender a envelhecer. Resignarem-se diante do exaurir gradual das forças e das ofensas do mundo; mas não se deixarem abater, renascendo para a própria vida em forma do vivenciamento intenso de seus anseios mais nobres em correlação com as suas forças. Afinal, agora velhos, já não estão mais presos às convenções e aos deveres. Já têm tempo e sabem o que melhor lhes dignifica esse novo tempo; tempo que só os velhos têm. Deus é sábio e deu-lhes a decrepitude quando já não lhes é mais exigida a luta acerba do dever da sustentação da família. Deu-lhes a oportunidade do vivenciar mais belo, sem a exigência da força física de outrora, que ficou consubstanciada em outras lidas.
 
É preciso que os homens, à semelhança de Deus, sejam revestidos de sabedoria para vivenciarem os seus velhos; beberem as suas ricas experiências do sentir e do saber.
 
Feliz dos velhos que têm netos e filhos amorosos, pois já não terão que experimentar o fel da indiferença, oferecendo, em contrapartida a esse amor, o seu próprio amor.
 
Desrespeitar os velhos é não considerar o amanhã.
 
O velho de hoje, foi, em tempo ido, se bem vivido, o servidor de todos e, por isso, está apto ao galardão de maior entre todos, na assertiva de Jesus: “Quem quiser ser o maior dentre vós, seja o servidor de todos”.
 
Não desprezemos, pois, os que promoveram as nossas vidas e que hoje as enchem de amor.
 
Feliz daquele que valoriza e ama os velhos do mundo. Feliz do velho que viveu a vida bem vivida e vive agora o esplendor da velhice com o espírito jovem, cheio de vida.
 
Ouçamos como as crianças, a história do vovô! Saboreemos o bolo da vovó! O mundo certamente será mais doce e mais poético.
 
E vós, que possuis o privilégio de ainda conviver com eles, já abraçou os seus velhos hoje?
 
Anderson - 18.09.09
 
Nota: O leitor poderá compreender melhor as citações sobre o estado social da humanidade, na leitura do livro “A Gênese”, de Allan Kardec.
 
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Com esta mensagem eletrônica
seguem muitas vibrações de paz e amor
para você

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