quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Amor e Ciúme



Amor e Ciúme


  O ciúme voraz é o grande motivo de muitas dores morais. Em verdade, esse sentimento egoístico está presente em nossas vidas tanto quanto a dor, ou seja, quase todo ser humano sente.

Toda vez que uma dor nos espicaça o ser é porque há algo errado conosco, e o mesmo acontece com o ciúme: alguma coisa está errada em nós mesmos, no outro ou na relação.

  A expressão "o pecado do Amor" é tão absurda quanto o ilogismo: "matar por Amor". Enquanto não formos capazes de discernir juízos opostos e continuarmos a confundi-los, não estaremos em condições de reformular nossa concepção do legítimo sentido do Amor.

Uma criatura que ama não agride e nem fere o ser amado, que é para ela objeto de veneração.

  O ciúme não procede do Amor,
  Mas do apego animal ao plano sensorial.

O animal é que ataca e fere por ciúme, nunca o homem, pois, nele, o Amor se manifesta:

  Em ternura,
  Em adoração
  E consciência do valor do ser amado.

  As criaturas de sensibilidade humana não se deixam arrastar pelas paixões, que pertencem ao plano dos instintos.

Luiz de Camões já dizia que
▬  "O  Amor é um fogo que arde sem se ver". 

Preocupados com o Amor humano, psicólogos e filósofos até hoje se interessam, quase que exclusivamente, por essa forma lírica e dramática do Amor entre duas criaturas.

  A Psicanálise, nos primórdios da teoria freudiana, colocou o problema do Amor na dimensão do patológico. Em verdade, Freud teve de entrar no estudo e na pesquisa do Amor pelo subsolo da psicopatologia.

  O aspecto patológico é o mais dramático do Amor
  E o que mais toca o interesse humano.

Dizia Mahtama Gandhi:
▬  "O Amor é a força mais abstrata e, também, a mais poderosa que o mundo possui,” 

  Na questão 938-a, de "O Livro dos Espíritos", aprendemos o seguinte:

▬  "A natureza deu ao homem a necessidade de amar e de ser amado. Um dos maiores gozos que lhe são concedidos na Terra é o de encontrar corações que com o seu simpatizem”. 

  O Amor deve ser o objetivo excelso no roteiro humano para a conquista da paz na sua expressão apoteótica.

Porém, diversas vezes, o nosso sentimento é meramente desejar, e tão-somente com o "desejar":

  Desfiguramos instintivamente,
  Os mais promissores projetos de vida.

Nos dias de hoje, fala-se e escreve-se muito sobre sexo e pouco sobre Amor.

  Certamente, porque esse sentimento não se deixa decifrar, repelindo toda tentativa de definição. Por isso, a poesia, campo mítico por excelência, encontra, na metáfora, a tradução melhor da paixão, como se esta fosse o Amor.

O desenvolvimento dos centros urbanos criou a "síndrome da multidão solitária". As pessoas estão lado a lado, mas suas relações são de contigüidade.

  Ainda  em O livro dos Espíritos encontramos na questão 911 o seguinte questionamento:

▬  “Não haverá paixões tão vivas e irresistíveis, que a vontade seja impotente para dominá-las?

▬  "Há muitas pessoas que dizem: Quero, mas a vontade só lhes está nos lábios. Querem, porém muito satisfeitas ficam que não seja como "querem".

Quando o homem crê que não pode vencer as suas paixões, é que seu Espírito se compraz nelas, em conseqüência de sua inferioridade.

  Compreende a sua natureza espiritual aquele que as procura reprimir. Vencê-las é, para ele, uma vitória do Espírito sobre a matéria.”

Quando sofremos uma paixão qualquer, embora seu afloramento seja:

  Espontâneo,
  Involuntário,
  Dado o automatismo que opera em nós...

... Podemos, por nossa vontade,  não consentir em seus efeitos e reter muitos dos movimentos aos quais ela dispõe o corpo.

Por exemplo:

  Se a cólera faz levantar a mão para bater, a vontade pode comumente retê-la;
  Se o medo incita as pernas a fugir, a vontade pode detê-las, e assim por diante. 

Eis, portanto, uma constatação simples, porém altamente relevante para o controle das paixões: sustar os seus efeitos maléficos sobre as coisas e pessoas.

  Isso está em nosso poder, desde que tenhamos vontade firme e discernimento moral para reconhecer quais os efeitos bons e quais os ruins.

O legítimo Amor é o convite para sair de si mesmo. Se a pessoa for muito centrada em si mesma, não será capaz de ouvir o apelo do outro. Isso supõe a preocupação de que a outra pessoa cresça e se desenvolva como ela é, e não como queiramos que ela seja.

  O Amor representa a liberdade,
  E não o psicótico sentimento de posse (paixão exacerbada).

É a lei de atração e de todas as harmonias conhecidas, sendo força inesgotável que se renova sem cessar e enriquece, ao mesmo tempo, quem dá e quem recebe.

Jorge Hessen.
Jornalista, professor e historiador (licenciado pela Unb) articulista e palestrante.




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