quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Em Busca dos Mecanismos da Mediunidade


Escreve: Alexandre Fontes da Fonseca (*)
Brasil
 
 
Recentes pesquisas indicam regiões cerebrais relacionadas aos nossos sentimentos religiosos e à mediunidade. Eis uma interessante notícia.
 
 
No dia 4 de abril de 2004, no programa Fantástico, da Rede Globo de Televisão, foi ao ar uma interessante reportagem sobre os poderes, considerados extraordinários, do cérebro. O Dr. Drauzio Varella apresentou teses científicas para explicar determinados comportamentos como o fanatismo religioso e as experiências místicas. Varella associa tais comportamentos a determinadas reações físico-químicas em algumas regiões do cérebro. A reportagem mostra exemplos de pessoas comuns e famosas, que apresentam comportamentos esquisitos e alterações significativas em suas personalidades, portadoras de epilepsia (descarga nervosa em que os neurônios emitem pulsos ao mesmo tempo) em determinadas áreas do cérebro. Como um exemplo famoso, a reportagem mostrou que o grande gênio da pintura, Vincent Van Gogh, sofria de epilepsia e que, no auge da doença, ele foi demitido da função de pastor por causa de um intenso fanatismo religioso.
 
Varella admite que não se pode provar que a epilepsia seja a causa do sentimento de fanatismo ou misticismo nas pessoas mas ele afirma que está comprovada a existência de uma relação entre essa doença e o que ele denominou de “hiper-religiosidade”.
 
Neste artigo pretendemos discutir a questão sob a óptica espírita aproveitando uma interessante pesquisa, divulgada na reportagem acima, sobre um experimento que pretende simular uma visão espiritual. Veremos que essa pesquisa, ao invés de reforçar argumentos materialistas, pode contribuir com os estudos espíritas sobre os mecanismos da mediunidade.
 
O EXPERIMENTO: Cientistas canadenses criaram um instrumento (um capacete) que contem diversas bobinas elétricas dispostas em posições pré-estabelecidas, a ser colocado sobre a cabeça de um indivíduo com os olhos vendados. A passagem de determinadas correntes elétricas através dessas bobinas cria um campo magnético de intensidade suficiente para estimular pulsos nervosos em regiões específicas do cérebro dos indivíduos sob teste, gerando pensamentos e sensações. Através deste experimento, os cientistas desejam simular, artificialmente, as chamadas experiências espirituais.
 
O Prof. Michael Persinger, pesquisador responsável por essas pesquisas, apresenta, em sua “homepage” [1], os interessantes resultados de seus testes. Quando determinadas regiões do cérebro são estimuladas, as pessoas disseram sentir a presença de entidades, Deus ou disseram estar vendo determinadas “formas”. Segundo a reportagem do Fantástico, essas experiências não reproduziram, ainda, uma autêntica visão espiritual. E, como diz Persinger, os cientistas não estão preocupados em saber se a origem das experiências místicas ou espirituais é Deus ou os espíritos. Eles acreditam que estão descobrindo como essas sensações ocorrem dentro do cérebro [1].
 
Essa experiência e a opinião dos cientistas nos fazem lembrar a questão 370 de O Livro dos Espíritos [2]:
 
370. Da influência dos órgãos se pode inferir a existência de uma relação entre o desenvolvimento dos do cérebro e o das faculdades morais e intelectuais?
“Não confundais o efeito com a causa. O Espírito dispõe sempre das faculdades que lhe são próprias. Ora, não são os órgãos que dão as faculdades, e sim estas que impulsionam o desenvolvimento dos órgãos.”.
 
Destacamos que a pergunta de Kardec é análoga à questão sobre a relação entre o funcionamento do cérebro e a personalidade de uma pessoa. E para responder essa questão de forma mais precisa transcrevemos a pergunta número 372 a):
 
372. a) - Não há, pois, fundamento para dizer-se que os órgãos nada influem sobre as faculdades?
“Nunca dissemos que os órgãos não têm influência. Têm-na muito grande sobre a manifestação das faculdades, mas não são eles a origem destas. Aqui está a diferença. Um músico excelente, com um instrumento defeituoso, não dará a ouvir boa música, o que não fará que deixe de ser bom músico.” 
 
 “Aqui está a diferença”, disseram os espíritos. A causa das faculdades ou da personalidade de um indivíduo não está nos órgãos, mas sim no espírito. Mas os órgãos limitam a manifestação dessas faculdades. A causa dos fenômenos mediúnicos não reside no cérebro, mas sim no espírito comunicante. Mas os órgãos impõem limites para o fenômeno mediúnico. Assim, concluímos que os resultados dessas pesquisas apenas indicam, ainda que de forma bastante rudimentar, onde e, talvez, como as influências espirituais se manifestam no cérebro. Elas não podem ser usadas para afirmar que a causa do fenômeno reside no cérebro. Esses experimentos não são capazes de trazer informações precisas sobre os mecanismos da interação mente-corpo, mas elas indicam um caminho ao verificarem que os neurônios estão sujeitos à influências de origem eletromagnética. Essas pesquisas são, no fundo, muito mais interessantes para nós espíritas pois elas trazem alguma luz para o estudo dos mecanismos da mediunidade.
 
Ilustração do esquema experimental utilizado pelo Prof. Michael Persinger
para testar a sensibilidade do cérebro à aplicação de determinados campos eletromagnéticos.
Cada bobina é localizada de acordo com a região cerebral cuja sensibilidade se deseja estudar.
 
Podemos formular algumas questões científicas. Teriam as regiões cerebrais onde os cientistas conseguiram simular as visões espirituais alguma ligação especial com a glândula pineal que, segundo André Luiz [3], representa a “glândula da vida mental”?
 
No capítulo sobre Assimilação de correntes mentais, em Nos Domínios da Mediunidade [4], lemos a seguinte descrição:
 
(...) A emissão mental de Clementino (espírito), condensando-lhe o pensamento e a vontade, envolve Raul Silva (encarnado) em profusão de raios que lhe alcançam o campo interior, (...). Essas impressões apóiam-se nos centros do corpo espiritual, que funcionam à guisa de condensadores, atingem, de imediato, os cabos do sistema nervoso, a desempenharem o papel de preciosas bobinas de indução, acumulando-se aí num átimo e reconstituindo-se, automaticamente, no cérebro, onde possuímos centenas de centros motores, semelhante a milagroso teclado de eletroímãs, ligados uns aos outros e em cujos fulcros dinâmicos se processam as ações e as reações mentais, (...), considerando-se o encéfalo como poderosa estação emissora e receptora (...). 
 
Essa explicação do assistente Áulus é muito oportuna. Sendo o encéfalo uma estação emissora e receptora, nada mais lógico o resultado obtido pelos cientistas canadenses de que os indivíduos tiveram sensações e até visões. Mas desde que os sinais eletromagnéticos, gerados pelas bobinas, não são capazes de produzir pulsos cerebrais relacionados a verdadeiros pensamentos e sentimentos, é de se esperar, como mencionado pela reportagem do Fantástico, que as visões obtidas não sejam tão reais quanto as visões espirituais.
 
Outras questões surgem ao pesquisador espírita: que relação existiria entre a epilepsia (em qualquer grau) e a chamada “hiper-religiosidade” em algumas pessoas? A resposta completa a essa questão certamente ainda tardará mas temos, de novo, em André Luiz alguma informação (cap. 8 da referência [5]):
 
(...) o fenômeno epileptóide (...) mui raramente ocorre por meras alterações no encéfalo, como sejam as que procedem de golpes na cabeça – (...) – e, geralmente, é enfermidade da alma, independente do corpo físico, que apenas registra, nesse caso, as ações reflexas.
 
Adiante, no mesmo capítulo, o instrutor explica:
 
(...) Contudo, logo que se lhe consolidou a posse do patrimônio físico, ultrapassados os catorze anos de idade, Marcelo, com a organização perispiritual plenamente identificada com o invólucro fisiológico, passou a rememorar os fenômenos vividos, e surgiram-lhe as chamadas convulsões epilépticas com certa intensidade. 
 
Vemos que André Luiz expõe uma relação entre a epilepsia e razões de ordem espiritual. Apesar disso não ser suficiente para explicar a relação entre esta doença e os comportamentos religiosamente fanatizados, André Luiz afirma que a epilepsia tem ligação com problemas espirituais. Aguardaremos futuras pesquisas nessa área.
 
Essas questões, portanto, são verdadeiros desafios para pesquisadores espíritas com especialidade em diversas áreas, não somente em Neurociência. Além de tentar realizar experimentos semelhantes, será preciso verificar como as pesquisas do Prof. Michael Persinger [1] estão sendo recebidas pela comunidade científica. Estão elas sendo reproduzidas? Existem questionamentos por parte de outros cientistas da mesma área?
 
Concluindo, estamos tendo notícias de um experimento controlado em laboratório, desenvolvido com o intuito de pesquisar os efeitos de determinados tipos de influências externas no cérebro. Essas pesquisas, que relacionam atividade cerebral com alguns tipos de sensações e comportamentos, ao contrário do que se poderia pensar, não servem de apoio ao materialismo. Muito pelo contrário, elas podem contribuir para o estudo dos mecanismos da mediunidade.  
 
O autor é doutor em Física pela UNICAMP e “post-doc” no Instituto de Física da USP. O autor é membro do conselho editorial do GEAE (http://www.geae.inf.br).
 
Referências
[2] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, Editora FEB, 76a. Edição (1995).
[3] A. Luiz pela psicografia de F. C. Xavier, Missionários da Luz, Editora FEB, 26ª Edição (1995).
[4] A. Luiz pela psicografia de F. C. Xavier, Nos Domínios da Mediunidade, Editora FEB, 21ª Edição (1993).
[5] A. Luiz pela psicografia de F. C. Xavier, No Mundo Maior, Editora FEB, 16ª Edição (1990).
 
(Artigo publicado na Revista Internacional de Espiritismo 8, pp. 422-423, (2004)
 
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