quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Garimpo de Amor




Garimpo de Amor



Garimpo de Amor
Narra antiga lenda persa que um homem residia em próspera herdade, na cidade de Golconda, com sua família, alguns camelos e outros animais, um poma generoso e um rio de águas cantantes que lhe passava pelos fundos da propriedade.
A existência sorria-lhe bênçãos e nenhuma outra preocupação o afligia.
Oportunamente passou pela sua vivenda um homem religioso, que viajava convidando as almas à reflexão e à fé. Pediu-lhe hospedagem e foi recebido com carinho.

Após o jantar, na primeira noite da sua estada, o visitante indagou-lhe:
- És feliz, homem? Observo que sorris e desfrutas de algumas regalias da vida.
Gostaria de saber se possuis diamantes ou pedras outras preciosas, que são as bases da felicidade?
O anfitrião, algo surpreendido, respondeu-lhe:
-Em realidade, sinto-me muito feliz. Tenho uma família saudável, que amo e pela qual sou amado, desfrutamos todos de saúde e confiamos em Deus.

Sou negociante próspero, mas não ambicioso, dispondo do necessário para prover o lar de tudo quanto se faz indispensável.
Mas não tenho jóias, nem mesmo quaisquer outras pedras preciosas.
Apesar disso, sim, sou feliz,
- Lamento decepcionar-te - redarguiu o viajante. Se não possuis diamantes, talvez jamais os hajas visto, não sabes o que é a felicidade, tampouco és realmente feliz.

Passando a outros temas, logo depois, recolheram-se ao leito.
O homem, que se sentia feliz, começou a pensar na informação que recebera, e pôs-se a ponderar a respeito do valor dos diamantes. Passou uma noite mal dormida.
No dia seguinte, o hóspede foi-se adiante, e, ao despedir-se, insistiu, sugerindo:
- Pensa nos diamantes, conforme te falei.
A partir dali, o homem tranquilo passou a cobiçar diamantes. Procurou conhecer alguns, e perdeu a paz.

Resolveu, por fim, vender a propriedade, deixou uma grande parte do dinheiro com um cunhado, a quem confiou a família, enquanto seguiu em longa viagem na busca de diamantes.
Vadeou rios, atravessou florestas, visitou montanhas e vales, venceu desertos, buscando sempre diamantes, sem jamais os conseguir.
Passaram-se os anos, ele envelheceu procurando diamantes, a enfermidade o vitimou e a morte arrebatou-o, sem que houvesse alcançado a felicidade através das pedras famosas.

Sua família, que houvera perdido o contato com ele, dispersou-se e sofreu amargamente o abandono, a miséria, a separação...
Aquele que lhe houvera comprado a propriedade, vivia feliz e era generoso para com todos.
Mais de um decênio transcorrido, o religioso viajante retornou à propriedade e procurou informar-se a respeito do antigo generoso anfitrião. Foi informado de que já não residia ali, de que houvera vendido a casa e as terras, sem que se soubesse do destino que elegera.
Convidado a pernoitar, na mesma residência, após o jantar, enquanto conversava com o senhor que o hospedava, observou sobre a lareira algumas pedras que brilhavam ao crepitar das labaredas. Levantou-se, segurou algumas delas, aproximou-as da claridade, e perguntou, emocionado:
- Onde encontraste estas gemas?
- Entre os seixos e outras pedras no riacho - respondeu-lhe o anfitrião, desinteressado.
- Os animais pisam-nas, enquanto sorvem a água transparente, e porque me pareceram muito originais, trouxe algumas para decorara lareira.
-Homem de Deus! — exclamou o religioso, trémulo, quase a desvairar. - Estas pedras são diamantes.

Amanhã, muito cedo, leva-me ao córrego...

... E passou uma noite inquieta, aflito.
Pela alva, seguiu com o proprietário na direção do regato, e quando lá chegaram, o religioso, com olhar de lince, constatou que as águas transparentes deslizavam sobre um leito de diamantes brutos, negros, brancos, amarelos, desprestigiados entre calhaus sem valor.
Desse modo, descobriu-se uma das maiores minas de diamantes do mundo, de onde saíram pedras fabulosas, algumas denominadas como Príncipe Orlojf Ko-i-Noot; etc., que dormem em museus famosos do mundo ou brilham nas coroas de muitos reis.
O homem, que era feliz sem conhecer diamantes, deixou-os no quintal da residência para ir procurá-los, inundo afora, sem nunca os encontrar...


O mesmo fenômeno ocorre com o amor.
As vidas possuem o amor no seu imo, mas não o conhecem . Necessitam de alguém que as desperte para o significado profundo e o valor incomparável desse tesouro. No entanto, muitos se referem ao amor como algo que está em tal ou qual lugar, apresenta-se nesta ou naquela situação, sob uma ou outra condição, indicando lugares onde raramente pode ser encontrado.
O amor radica-se no imo de todos os seres pensantes, esperando somente ser identificado, para realizar o mister para o qual se destina.
Não exige sacrifício nem qualquer imposição externa, pois que pulsa, mesmo quando ignorado, realizando o seu mister até o momento em que estua de beleza e harmonia, dominando as paisagens que o agasalham.
La Fontaine escreveu que " nada tem poder sobre o amor; o amor tem-no sobre todas as coisas."
O amor converte os sentimentos humanos e sublima-os, tornando-os santificados e
libertadores.
Gandhi afirmava que "por mais duro que alguém seja, derreterá no fogo do amor; se não derreter, é porque o fogo não é bastante forte."
O amor espera pacientemente no leito do rio existencial humano até o momento em que seja descoberto, passando pelo período de desbaste da ganga externa, a fim de que a sua luminescência esplenda em toda a sua glória estelar.
Não surge completo, acabado. Necessita ser trabalhado, aprimorado, bem orientado.
Quanto mais é aplicado, mais se aformoseia, e quanto mais é repartido, mais se multiplica em poder, valor e significado.


Garimpo de Amor
É o grande desafio para a existência humana, para a conquista do Espírito imortal.
O amor é um garimpo de diamantes estelares que deve ser explorado.
Possui gemas de diferentes qualidades e valores muito diversos.
De acordo com a coragem e a decisão de quem busca encontrar as suas riquezas insuperáveis, sempre oferece novos matizes e configurações especiais.




Joanna de Ângelis &  Divaldo P. Franco


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